“Coração feliz”: Romeu de Castro sonhava com Copa feminina no Brasil

Pioneiro no incentivo à prática do futebol por mulheres, Romeu de Castro sonhou com o Mundial em terras brasileiras

(CRÉDITO: ACERVO PESSOAL)

Por Letícia Denadai

Para algumas pessoas, a Copa do Mundo Feminina no Brasil pode ser resultado de uma crescente recente. Mas, para Romeu de Castro, um dos pioneiros no investimento no futebol de mulheres no Brasil, esse processo teve início décadas atrás.

“O coração está feliz por ver o mundo todo falando do nosso país, por ver ações que resgatam a história das pioneiras. Mulheres que, na época delas, tinham um talento imenso e não havia simplesmente condições de apoio no mercado para que elas pudessem viver dignamente do futebol.”

Romeu de Castro iniciou sua trajetória na modalidade antes mesmo da maioridade. Com apenas 15 anos, começou a acompanhar sua tia Mara nos treinos de futsal no Guarani, a pedido do seu tio. “Tinha 15 anos e os homens naquela época não queriam muito que o futebol feminino seguisse, e aí me propus e falei: ‘Ah, já que ninguém está querendo auxiliar vocês, eu posso fazer isso, ocupar esse papel’. E comecei a ligar para as pessoas que estavam organizando o futebol feminino na época, que era a prefeitura de São Paulo, consegui a inscrição do Guarani e me tornei, aos 15 anos de idade, o diretor de futebol feminino do Guarani”, revelou Castro.

Naquela época, o futebol de mulheres tinha acabado de voltar a ser legalizado como esporte, já que, em 1983, havia terminado o decreto que proibia a prática esportiva. “Naquele momento, a gente tentava projetar um pouco do futuro. Mas as dificuldades eram muito grandes. Então, a gente focava muito na sobrevivência daquele grupo”.

Mas Romeu sabia o potencial que aquelas mulheres tinham e que era questão de tempo para ele ampliar seus horizontes. “Me apaixonei pelo futebol de mulheres, praticamente à primeira vista.

Além do fato da minha tia estar jogando, via um talento naquelas meninas que era fora de série”, lembrou. “Tinha uma dimensão que aquilo poderia evoluir muito e, ao mesmo tempo, tinha muitas portas se fechando, como aconteceu com a extinção do departamento do Guarani. Depois, a gente conseguiu abrir portas como a Federação Paulista de Futebol.”

Em 1987, a FPF organizou o primeiro campeonato estadual de mulheres, e Romeu já estava há cinco anos envolvido na organização da modalidade. “Esse sucesso cria a primeira liga de uma estrutura profissional na América do Sul, que foi o Campeonato Paulista e a Federação Paulista começa a assumir esse papel de pioneirismo e a partir desse ponto, de 1997, no pós-Olimpíadas de Atlanta, São Paulo nunca mais deixaria a liderança como o maior centro de fomento do futebol feminino.

Até 1997 o Rio de Janeiro rivalizava e ganhava muitos títulos. Depois de 1997, São Paulo passa a ter um protagonismo inquestionável”, enfatizou.

Depois, Romeu seguiu sonhando cada vez mais alto – já tinha conquistado o futebol paulista de clubes, mas ainda tinha a Seleção Brasileira para ele alcançar. “E quando nós começamos o processo da seleção de 1988 para o primeiro Mundial, aquilo nos trazia uma esperança muito grande”, relembrou.

“Era o passo para finalmente estarem se sentindo aceitas e incluídas, que elas iam ser respeitadas dentro da prática do futebol, que a partir daquele momento seria também o futebol das mulheres, o futebol feminino, com muita garra, com muito talento e aquilo marcou bastante. A esperança era imensa.”, completou.

Presente e futuro
Agora, 38 anos depois, o Brasil passa da expectativa de jogar o primeiro Mundial para ser o primeiro país da América Latina a receber a Copa do Mundo Feminina. “Quando nós começamos a investir realmente e a profissionalizar, a gente tinha expectativa que o Brasil sediaria grandes eventos”, garante Romeu de Castro que já imaginava o potencial que o futebol de mulheres teria aqui em terras brasileiras.

“A gente viu todas as dificuldades que passaram e hoje você está chegando muito próximo a um momento que é o ápice, que você coroa todos aqueles sacrifícios e lutas que aconteceram. E é muito bonito, toca o coração da gente ver ações que resgatam essas histórias, que dão protagonismo às jogadoras que foram as estrelas daquele período.”

Há 40 anos, Romeu de Castro sonhou que, um dia, o futebol feminino fosse o foco central de um grande evento aqui no Brasil. E, em 2027, esse sonho vai se tornar realidade.

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