Ruptura do tendão de Aquiles preocupa atletas amadores e pessoas acima dos 40 anos

(Imagem: Magnific.com)

A cena se repete em quadras, campos de várzea e ruas de todo o país, quase sempre no fim de semana. Um jogador parte para uma arrancada, sente um estalo seco na parte de trás da perna e cai, convencido de que levou um chute ou uma pedrada por trás. Olha para os lados e não há ninguém.

A dor vem em seguida, intensa, acompanhada da impossibilidade de ficar na ponta do pé. O que parecia um trauma externo é, na maioria desses casos, a ruptura do tendão de Aquiles.

A lesão é tão ligada a esse relato que ganhou apelido entre ortopedistas: síndrome da pedrada. Ela costuma surgir no momento em que o praticante força uma flexão brusca do tornozelo durante uma corrida ou um salto, em geral sem aquecimento adequado e depois de meses ou anos longe da atividade física regular.

“O tendão, que conecta a musculatura da panturrilha ao calcanhar, não suporta a sobrecarga e se rompe de forma parcial ou total”, explica Dr. Bruno Air, médico ortopedista especialista em pé em Goiânia.

O número de pessoas expostas a esse risco aumentou nos últimos anos. Segundo o Ministério da Saúde, a parcela de adultos que pratica ao menos 150 minutos de atividade física por semana passou de 30,3% em 2009 para 42,3% em 2024, conforme o levantamento Vigitel.

A corrida de rua puxa esse movimento. Dados da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua apontam mais de 2,8 mil provas realizadas em 2024, alta de 29% sobre o ano anterior. Mais gente se exercitando significa, também, mais gente sujeita a lesões de impacto.

O tendão mais forte do corpo, e um dos que mais se rompem

O tendão de Aquiles é o mais resistente do corpo humano e suporta cargas equivalentes a várias vezes o peso corporal durante a corrida e o salto. Ainda assim, é o tendão que mais se rompe.

A incidência estimada gira em torno de 18 casos para cada 100 mil pessoas por ano, índice que vem subindo nas últimas duas décadas justamente pelo aumento da prática esportiva entre adultos.

A ruptura responde por cerca de 11% das queixas relacionadas aos membros inferiores e pode chegar a 25% entre atletas de competição, conforme revisões publicadas na literatura ortopédica brasileira.

O dado mostra que a lesão não se restringe a profissionais. Pelo contrário, é entre os praticantes ocasionais que ela aparece com mais frequência.

Por que adultos acima dos 40 e atletas de fim de semana lideram os casos

A faixa etária concentra parte importante das ocorrências. O pico de incidência fica entre a terceira e a quarta décadas de vida, ou seja, entre os 30 e os 40 anos, e há um segundo pico mais tarde, já na população idosa. Homens se lesionam de duas a cinco vezes mais do que mulheres, segundo estudos epidemiológicos.

A explicação está na combinação entre envelhecimento do tendão e padrão de esforço. Com o passar dos anos, a estrutura perde elasticidade e capacidade de absorver impacto.

Quando uma pessoa que ficou sedentária por longos períodos retoma o esporte de maneira intensa, sem preparo gradual, submete um tecido já menos flexível a um esforço explosivo.

O futebol recreativo, o tênis, o basquete e a corrida concentram os movimentos de risco: arrancadas, frenagens bruscas e mudanças rápidas de direção.

Os sinais que costumam ser ignorados

O diagnóstico nem sempre é imediato. Muitos pacientes confundem a ruptura com uma torção ou um estiramento e demoram a procurar atendimento, o que pode comprometer o resultado do tratamento. O sinal mais característico é o estalo audível no momento da lesão, seguido de dor aguda na região posterior do tornozelo.

Outros indícios ajudam a diferenciar a ruptura de lesões mais simples. A pessoa perde a força para empurrar o pé para baixo e não consegue ficar na ponta dos pés.

Em muitos casos, é possível sentir com os dedos uma depressão, uma espécie de buraco, no trajeto do tendão, logo acima do calcanhar. Inchaço e hematoma na região completam o quadro. A presença desses sinais após um trauma esportivo indica necessidade de avaliação sem demora.

Quando procurar avaliação especializada

Diante da suspeita, a recomendação é buscar um ortopedista especialista em tendão de Aquiles o quanto antes, já que o intervalo entre a lesão e o início do tratamento influencia diretamente o prognóstico.

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O diagnóstico combina o exame clínico, com testes que avaliam a continuidade do tendão, e exames de imagem como a ultrassonografia ou a ressonância magnética, capazes de confirmar a extensão da ruptura.

Quanto mais cedo a lesão é identificada, maiores as opções de tratamento e melhores os resultados funcionais. Rupturas antigas, tratadas semanas depois do trauma, tendem a exigir procedimentos mais complexos, porque as extremidades do tendão se retraem e dificultam o reparo direto.

Por isso, a orientação dos especialistas é não esperar a dor passar sozinha quando há sinais claros de rompimento.

O que enfraquece o tendão antes da ruptura

Alguns fatores aumentam a fragilidade do tendão e ajudam a explicar por que ele cede. O uso de determinados antibióticos da classe das fluoroquinolonas, como a ciprofloxacina e a levofloxacina, está associado a maior risco de ruptura. Infiltrações repetidas de corticoides na região também enfraquecem o tecido.

O excesso de peso é outro componente relevante. Quilos a mais elevam a carga sobre o tendão a cada passo e a cada impulso, num período em que a obesidade avança no país.

Dados do Vigitel mostram que o excesso de peso entre adultos passou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024. Some-se a isso o padrão de quem treina de forma irregular, alterna semanas de sedentarismo com esforços pontuais e ignora o aquecimento.

A junção entre tecido enfraquecido e esforço explosivo é o que costuma anteceder o rompimento, e ajuda a entender por que tantos casos acontecem fora do esporte de alto rendimento.

Conservador ou cirúrgico: o que define a escolha do tratamento

Confirmada a ruptura, existem dois caminhos. O tratamento conservador utiliza imobilização com bota ou órtese, controle da dor e fisioterapia progressiva, sem corte.

É indicado com mais frequência a pacientes de menor demanda física ou com contraindicações à cirurgia. A principal desvantagem é o risco mais alto de nova ruptura.

O tratamento cirúrgico faz o reparo direto das extremidades rompidas e tende a oferecer recuperação funcional mais rápida e menor índice de novas rupturas, motivo pelo qual costuma ser preferido por atletas e por quem deseja retornar a atividades de impacto.

As técnicas evoluíram, e hoje a cirurgia do pé e tornozelo conta com métodos minimamente invasivos, em que o reparo é feito por incisões pequenas, de poucos centímetros, com menor agressão à pele e à região posterior do tornozelo.

A escolha entre conservador e cirúrgico leva em conta idade, nível de atividade, expectativa funcional e doenças associadas, e deve ser discutida caso a caso.

Recuperação e retorno ao esporte

O reparo do tendão é apenas a primeira etapa. A reabilitação, conduzida em fases, vai da proteção inicial ao fortalecimento progressivo e ao retorno gradual aos movimentos esportivos. O processo costuma levar de três a seis meses, e a pressa nessa fase é um dos principais motivos de recidiva.

Os números reforçam a importância do cuidado. Até um terço dos atletas que sofrem a lesão não retorna ao mesmo nível de desempenho anterior, segundo a literatura. O retorno seguro depende de paciência, acompanhamento profissional e respeito aos prazos biológicos de cicatrização.

Para quem ultrapassou os 40 anos e mantém uma rotina de exercícios, a prevenção segue sendo o caminho mais seguro: fortalecimento da panturrilha, alongamento, progressão gradual de carga e atenção aos sinais que o corpo dá antes que o tendão chegue ao limite.

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