
O último jogo do campeonato no Estádio do Dragão diante dos açorianos do Santa Clara, que o FC Porto venceu por uma bola a zero, colocou um ponto final numa temporada em que os azuis e brancos, volvidos quatro anos, voltaram a ser felizes. A época foi extremamente dura, mas a aposta no técnico italiano Francesco Farioli, depois das experiências mal sucedidas com o argentino Martín Anselmi e no português Vítor Bruno, ex-adjunto de Sérgio Conceição, resultou em pleno. A conquista da Liga Portugal permite aos dragões o regresso à Liga dos Campeões, prova onde encaixa uns largos milhões de euros, mas naturalmente que quererá muito mais. No plano desportivo o FC Porto é o único emblema que tem no seu currículo o pentacampeonato – cinco títulos nacionais consecutivos – e, a partir de agora, o sonho comandará os destinos do maior clube da cidade do Porto.
A grande verdade é que os adeptos portistas tiveram um dia bem preenchido, preparado ao pormenor, pois o FC Porto já tinha tudo devidamente montado desde o momento em que conquistou o título com o Arouca, quando ainda faltavam três jornadas para o desfecho da competição. Centenas de milhar de pessoas não perderam a oportunidade para participar na melhor festa de sempre de que há memória, a fazer fé nos vários testemunhos de inúmeros apaniguados daquele que é o maior clube de Portugal em número de títulos conquistados. Demorou algum tempo e os rivais aproveitaram um certo desnorte dos portistas, por isso a festa foi mesmo levada ao rubro, por vezes até à loucura.
Um dos momentos de maior impacto prendeu-se com a ligação entre a Marina do Freixo e a Ribeira, feita de barco, com a marginal do Rio Douro, do lado da cidade do Porto, repleta de público. Jogadores, staff e demais elementos diretamente ligados ao departamento de futebol embarcaram num dos barcos que diariamente fazem percursos turísticos no rio que nasce em Espanha e desagua no Atlântico, devidamente embelezado para receber os campeões. Chegados à zona ribeirinha, normalmente ocupada maioritariamente por turistas, assistiu-se a um espetáculo pirotécnico de rara beleza junto à Ponte Luiz I e uma exibição de drones preparada para os festejos que duraram até altas horas da madrugada. A instalação de um ecrã gigante, à mistura com muita animação com DJ, permitiu que todos vissem a entrega da taça aos novos campeões nacionais, cerimónia realizada em pleno Estádio do Dragão logo após o final da partida com o Santa Clara.
O ambiente esteve ao rubro um pouco por toda a cidade do Porto, com centenas de milhar de pessoas a dar largas à sua satisfação. A Avenida dos Aliados, a grande montra da Cidade Invicta, foi o local eleito para um dos pontos mais altos da celebração do título. Durante a tarde os festejos incluíram diversas atuações musicais, entre as quais a do grande compositor e cantor Pedro Abrunhosa, um dos maiores ícones da música ligeira portuguesa. Enquanto isso, no Dragão jogava-se o derradeiro encontro da Liga Portugal, com o técnico Francesco Farioli a exigir que os seus pupilos dessem uma imagem bem diferente daquela que foi deixada uma semana antes na Vila das Aves, com o FC Porto copiosamente batido pelo AVS, que já havia baixado de divisão. O confronto com o Santa Clara revelou outra determinação e os dragões despediram-se com uma vitória magra (1-0), ainda assim na sequência de um autogolo do defesa brasileiro Sidney Lima.
Subida à varanda dos Paços do Concelho
Como previsto, os azuis e brancos desfilaram pelo megapalco de 140 metros montado na Avenida dos Aliados, sempre com o fogo de artifício a dar um tom de São João anunciado – a grande festa popular da cidade acontece na noite de 23 para 24 de junho -, para depois serem recebidos pelo presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, bem como pelo executivo municipal. E voltou a fazer-se história com a tradicional subida à varanda do município portuense para erguer o troféu perante os adeptos concentrados nos Aliados.
O 31º título nacional, que escapava há quatro anos para os concorrentes, primeiro para o Benfica e depois para o Sporting, bicampeão nacional, transformou-se numa festa única e inédita, pois nunca os festejos tinham acontecido com uma viagem de barco rumo à Ribeira. A passagem pela emblemática Ponte Luiz I, como fogo de artifício e o espetáculo de drones, antes da subida à Avenida dos Aliados num trio elétrico panorâmico, transformou a Cidade Invicta num autêntico mar azul nunca visto, com milhares de adeptos em êxtase com a conquista do 87º troféu do palmarés azul e branco.
A grande noite terminou com uma sentida homenagem a Jorge Costa ao som de “Always”, do artista irlandês Gavin James, seguida do Hino do FC Porto. O antigo capitão dos dragões, que ainda iniciou a temporada ao lado do técnico Francesco Farioli enquanto treinador adjunto, veio a falecer no dia 5 de agosto de 2025, esteve sempre presente num dia bem especial para a família portista. Tudo começou logo ao segundo minuto da partida com o Santa Clara, pois o eterno nº 2 foi recordado com o desfraldar de uma enorme bandeira pela claque dos Super Dragões, ilustrando Jorge Costa e Pinto da Costa – o presidente dos presidentes – juntos a entregarem o troféu aos novos campeões. Um momento bem sentido e emotivo, ovacionado pelos mais de 50 mil adeptos que acorreram ao Estádio do Dragão para a grande festa do título.
Futuro exige o reforço da equipa
O legado recebido pelo presidente André Villas-Boas, que sucedeu ao eterno e saudoso líder Pinto da Costa, é enorme e fazer melhor não se afigura nada fácil. O FC Porto terá, necessariamente, de reforçar o seu plantel – anunciam-se algumas saídas importantes, logo a começar pelo guardião internacional português Diogo Costa – e vai ser necessário abrir os cordões à bolsa. Numa análise pura e dura, os azuis e brancos necessitam urgentemente de reforçar o setor atacante, pois desde a perda do espanhol Samu Aghehowa, devido a grave lesão, nunca mais houve um homem golo. O turco Deniz Gull é algo limitado e só apareceu, a espaços, a tentar fazer a diferença, pelo que à equipa portista valeu a inspiração de alguns elementos que realmente fizeram a diferença, casos mais flagrantes dos extremos brasileiros William Gomes e de Pepê, assim como como do dianteiro polaco Oskar Pietuszewski.
O chamado “defeso”, que precede o início da nova época, com o Campeonato do Mundo de permeio, promete muitas novidades, mas esse é um assunto que já estará a ser detalhado ao pormenor pelos responsáveis portistas. O presidente André Villas-Boas pretende conservar os jogadores tidos como indispensáveis para o técnico Farioli, mas os milhões falam sempre mais alto e caso as cláusulas de rescisão sejam batidas pelos valores fixados, obviamente que pouco haverá a fazer. O FC Porto possui valores como o jovem dinamarquês Viktor Froholdt, o argentino Alan Varela ou o brasileiro Pepê, ao que se sabe muito cobiçados pelos chamados tubarões europeus, e o mercado de transferências de verão promete ser agitado, aliás como sempre acontece por estas ocasiões.
Se no FC Porto ainda não se começou a falar em potenciais reforços para a temporada 2026/27, já o Sporting, que garantiu o 2º lugar na Liga Portugal e, dessa feita, um lugar de acesso ao play-off da Liga dos Campeões, adquiriu o atacante uruguaio Rodrigo Zalazar, de 26 anos, ao Braga, por 30 milhões de euros. Outra das contratações já efetuada é o meio-campista brasileiro Pedro Lima, proveniente do despromovido AVS, e figura maior do clube de Vila das Aves. O jogador fez a sua formação no Palmeiras, do Brasil, para depois ingressar no Norwich, de Inglaterra, tendo ainda passado pelo Osijek, da Croácia. Os leões não vão ficar por aqui, sabendo-se que irão apostar forte numa época em que tentarão roubar o título ao FC Porto.
Já o Benfica vive uma autêntica novela à volta do técnico português José Mourinho, que já foi dado como certo no Real Madrid, clube que orientou entre 2010 e 2013. O Special One, ainda considerado um dos melhores treinadores do mundo, manteve nos últimos tempos um silêncio ensurdecedor, tendo deixado o assunto entregue ao seu empresário Jorge Mendes, que tem tratado de todos os pormenores com o presidente dos merengues Florentino Pérez. Findo o campeonato, com o Benfica a garantir o 3º lugar e o consequente apuramento para a Liga Europa, Mourinho voltou a ser ele próprio, ou seja, polémico como sempre. Afinal, contrariamente ao que se tem afirmado de viva voz, é bem possível que permaneça no Benfica, pois já recebeu a proposta para a renovação, ainda que não rejeite a hipótese de voltar à capital espanhola. Os desenvolvimentos da novela seguem-se nos próximos dias…
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.


