
Um golaço do endiabrado Vini Jr., aos 50 minutos, com um remate cruzado na esquerda a fazer a bola entrar na “gaveta” na baliza defendida pelo ucraniano Anatoliy Trubin, garantiu ao Real Madrid um triunfo importante na Liga dos Campeões. Contudo, o encontro referente à primeira mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões ficou ensombrado por um alegado ato de racismo perpetrado por Gianluca Prestianni. Vinícius comemorou o golo de forma efusiva junto à bandeirola de canto, para depois o extremo argentino dos encarnados, com a camisola a tapar a boca, ter alegadamente provocado o talentoso brasileiro, ao chamar-lhe “macaco” por cinco ocasiões.
O francês Killian Mbappé testemunhou isso mesmo no final do encontro, no que foi acompanhado pelo treinador dos merengues, o antigo futebolista espanhol Álvaro Arbeloa, mas o caso ultrapassou as fronteiras portuguesas e chegou a todo o Mundo. São já várias as condenações sobre o sucedido, nomeadamente com a Confederação Brasileira de Futebol (CFF) a solidarizar-se com o atacante do Real Madrid. A serem comprovadas as gravíssimas acusações que recaem sobre o extremo argentino, o jogador dos encarnados incorre num pesado castigo que poderá ir aos 10 jogos de suspensão.
Após escutar os impropérios que, alargadamente, terá recebido, Vinícius Júnior correu para o árbitro do encontro, o francês François Letexier, que interrompeu de pronto a partida, fazendo uso do protocolo antirracismo da FIFA. O juiz do encontro cruzou os braços em forma de “X” à altura dos pulsos e apontou com o dedo indicador para o logótipo “Não ao Racismo” na manga da camisola. O encontro esteve interrompido cerca de uma dezena de minutos – podia até ter sido cancelado -, período em que os ânimos estiveram visivelmente agitados, com Vinícius Júnior a sentar-se no banco de suplentes, reentrando em campo quando o árbitro entendeu haver condições para que a partida prosseguisse. As peripécias sucederam-se e, mais tarde, José Mourinho foi mesmo expulso do banco, curiosamente por protestar a não amostragem de um cartão amarelo a Vini Jr. por carga à margem das leis sobre o colombiano Richard Ríos, o que seria o segundo “amarelo”, no entender do treinador português, e a consequente expulsão do extremo brasileiro. Já no final do jogo, por entre troca algumas trocas de “galhardetes” ainda dentro do campo, com Killian Mbappé a abordar Gianluca Prestianni e a dizer-lhe que chamou “macaco” em cinco ocasiões a Vinícius, surgiu a notícia de que o presidente do Benfica Rui Costa ter-se-ia envolvido em confrontos físicos com um elemento afeto à comitiva Real Madrid. O clube da Luz negou qualquer conduta menos adequada ao considerar a acusação “totalmente falsa e descabida”, mas é um facto que o ambiente foi tudo, menos pacífico.
Merengues de outra dimensão e Trubin a safar
Para lá de toda esta lamentável situação que acabou por marcar negativamente o encontro, o Benfica tem a vida extremamente complicada quando dentro de uma semana quando se deslocar ao Estádio Bernabéu para disputar o jogo da segunda mão do respetivo play-off. Para lá de o Real Madrid ser uma equipa de outra dimensão, não parece que os encarnados tenham argumentos suficientes para levar de vencida aquela que é por muitos considerada a melhor equipa do Mundo. Se não é, anda lá muito perto e o recente triunfo sobre este mesmo Real Madrid (4-2) num jogo épico que colocou as águias na rota da Champions nunca poderia ser tido em conta para esta fase a eliminar. Desta feita, os merengues foram manifestamente superiores e o triunfo nem sequer se pode colocar em causa, tal o domínio avassalador que exerceram durante, praticamente, toda a partida, ou pelo menos, até ao momento em que o encontro foi suspenso devido aos alegados insultos a Vinícius Júnior.
Anatoliy Trubin, então o herói improvável do jogo, ao apontar na última jogada, de cabeça o quarto golo que carimbou o passaporte dos benfiquistas para o play-off da Champions, voltou a efetuar algumas grandes defesas a remates de Mbappé e do uruguaio Federico Valverde. Início de encontro francamente prometedor para o Real Madrid, ainda que o Benfica até tenha entrado atrevido, apenas quebrado por uma grande intervenção do guardião francês Thibaut Courtois, ao deter uma bola disparada do meio da rua pelo norueguês Fredrik Aursnes. Um lance que não serviu para quase nada, pois os merengues mandavam autenticamente na partida, sempre com Vini Jr. e Mbappé a criarem o pânico junto à baliza de Trubin, com o ucraniano a deixar bem vincadas as suas extraordinárias qualidades. Não se pode falar em show de bola, mas estava à vista de todos – o Estádio da Luz registou a maior enchente de sempre – recorde absoluto com a presença de 66.287 espectadores – que o Real Madrid não iria consentir grandes veleidades a um adversário completamente manietado. O atacante grego Vangelis Pavlidis, o português Rafa Silva, recentemente contratado aos turcos do Besiktas, ou o norueguês Andreas Schjdrupe passaram literalmente ao lado do jogo.
Vini Jr. marca um golaço e o jogo “acaba”

O grande momento da partida aconteceu aos 50 minutos com o enormíssimo golo de Vinícius, que deambulou na esquerda e arrancou um fabuloso remate cruzado em arco, daqueles que fazem levantar qualquer estádio, exceto o da Luz, no caso, por razões óbvias. Foi então que surgiu toda a confusão com o jogador brasileiro a queixar-se ao árbitro sobre as palavras alegadamente proferidas por Prestianni ao chamar “macaco” a Vinícius. Acionado de pronto o mecanismo neste tipo de situações, segundo rigorosas instruções da FIFA, o jogo foi suspenso e apenas reatado mais de uma dúzia de minutos depois, com o atacante brasileiro a sentar-se no banco de suplentes depois de ter avisado o árbitro para a gravidade das afirmações do argentino do Benfica.
Claro que a partir daí tudo mudou e o jogo tornou-se bem diferente, ainda que os encarnados ainda tenham tentado dar uma resposta diferente. Sempre seguro na baliza, Thibaut Courtois resolveu tudo o que tinha a resolver. José Mourinho, expulso aos 85 minutos por ter protestado com o árbitro na sequência de uma falta de Vini Jr. sobre o colombiano Richard Ríos – ainda tentou mudar o rumo dos acontecimentos com as entradas do ucraniano Sudakov, do belga Lukebakio e do neerlandês Sidny Cabral, para além de Ríos, mas pouco havia a fazer. O jogo ficou definitivamente estragado com a “provocação” de Gianluca Prestianni e, naturalmente, o Benfica acabou por ser a equipa mais prejudicada. Missão difícil dentro de uma semana em Madrid para os comandados de Mourinho, ainda que não impossível, mas extremamente difícil diante de uma grande equipa, atualmente o líder da liga espanhola com mais dois pontos do que o Barcelona.
José Mourinho (treinador do Benfica): “Uma coisa é o que Vinícius diz, outra coisa é que diz o Prestianni. São coisas completamente diferentes. Aquilo que eu disse ao Vinícius de modo independente, não defendendo a minha dama, foi que quando se faz um golo daqueles, sai-se em ombros, não se vai mexer com o estádio ou mexer com o coração de um estádio, que é o estádio adversário. Como se diz em Espanha, quem marca um golo daqueles corta o rabo, corta a orelha e sai em ombros. Não acaba com o jogo. E ele acabou com o jogo. Foi uma primeira parte boa das duas equipas, também do Real Madrid. A segunda parte teve um golo fantástico e depois não há jogo.”
Álvaro Arbeloa (treinador do Real Madrid): “Têm de perguntar o que é que o Prestianni disse ao Vinícius. Todos no mundo do futebol merecem uma resposta. Perguntei se ele queria continuar a jogar. Disse-lhe que estaríamos sempre ao lado dele. Desde que cheguei que vamos juntos e morremos juntos. Acho que o Vinícius não vai inventar, nem vou colocar em dúvida as palavras do Vinícius. Nunca vou dar como morta uma equipa treinada por José Mourinho. Tenho a certeza que já está a preparar o próximo jogo contra nós.”

É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

