
Por estes dias o ciclismo nacional aguarda ansiosamente o arranque da 87ª edição da Volta a Portugal, competição que vai para a estrada no próximo dia 5 de agosto com um prólogo em Lisboa e conclusão agendada para onze dias depois com a derradeira etapa a terminar na cidade do Porto em plena Avenida dos Aliados. A modalidade tem-se mantido em franca atividade, sucedendo-se as clássicas, como aconteceu recentemente com o Grande Prémio de Torres Vedras – Troféu Joaquim Agostinho. Uma prova que anualmente homenageia aquele que é considerado o maior ciclista português, tragicamente desaparecido aos 41 anos na sequência de uma queda sofrida na Volta ao Algarve. O saudoso Ribeiro da Silva tem também o seu nome ligado a uma popular competição que se disputa em Lordelo, no concelho de Paredes, onde nasceu e viveu até aos 23 anos, idade com que viria a falecer na sequência de um acidente de mota, a quem o exigente crítico do jornal L´Équipe, Paul Ruinart, apelidou de “Português Voador”.
Dois desportistas e dois enormes campeões. Joaquim Agostinho foi conhecido mundialmente pelos lugares honrosos alcançados na Volta a França – 3º lugar em 1978 e 1979 – a que acrescentou um 2º lugar na Volta a Espanha em 1974. Vencedor da Volta a Portugal em três ocasiões, o corredor nascido em Torres Vedras, nas proximidades de Lisboa, somou inúmeros êxitos em várias competições, tendo, curiosamente, iniciado a sua carreira já com 25 anos. Agostinho era um autêntico poço de energia, ainda que algo desengonçado a correr, tendo sido vítima de várias quedas. A 30 de abril de 1984, quando liderava a Volta ao Algarve com as cores do Sporting, na chegada a Quarteira, um cão atravessou-se no seu caminho a escassos 300 metros da meta, o que o fez cair, provocando-lhe um traumatismo craniano. Mesmo tendo-se ainda levantado para terminar a etapa com a ajuda dos seus colegas de equipa, pouco ou nada havia a fazer. As persistentes dores de cabeça vieram a constatar uma fratura no osso parietal, vindo a falecer no dia 10 de maio de 1984 após uma dezena de intervenções cirúrgicas. Ao tempo o uso do capacete não era obrigatório, pois caso o tivesse utilizado poderia ter minorado os danos sofridos na queda.

Agraciado a título póstumo como Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Joaquim Agostinho tem o seu nome perpetuado na história da modalidade e ligado a uma prova em que anualmente é recordado na sua terra natal, onde está sepultado. Na edição deste ano, o vencedor foi o português Tiago Antunes (Efapel Cycling), feito que perseguia há já algum tempo, tendo conquistado pela primeira vez um sonho de infância. No próximo ano cumpre-se meio século da existência da prova, pelo que é de esperar um evento de elevado nível em Torres Vedras, cidade onde se pode apreciar o magnífico Museu de Ciclismo Joaquim Agostinho. Esta é uma corrida aberta a equipas nacionais e estrangeiras dos escalões Elite e Sub-23, pelo que aos longo de três dias a animação nas estradas conhece um entusiasmo invulgar, fruto da entrega do numeroso pelotão na defesa do nome daquele que ainda é considerado a maior figura do ciclismo português de todos os tempos.
Lordelo, terra de talentos
Ribeiro da Silva tem um palmarés bem mais curto, mas, como assinalámos, morreu muito cedo na sequência de um acidente de mota. Aos 23 anos, o ciclista de Lordelo já tinha vencido duas Voltas a Portugal (1955 e 1957), para lá de ter sido o primeiro português a passar o mítico Col du Tourmalet, tendo-se destacado pelas suas qualidades de nato trepador. Contudo, essa etapa seria ganha pelo francês Gastone Nencini, corredor que o perseguia na fuga. José Manuel Ribeiro da Silva terminou a Volta a França de 1957 na 25ª posição da classificação geral individual. O ciclista português, que correu integrado na equipa francesa Rochet-Dunlop, concluiu a prova a mais de uma hora e meia do lendário vencedor Jacques Anquetil, tendo alcançado no mesmo ano o 4º lugar na Volta a Espanha.
Lordelo é uma verdadeira terra de talentos. Freguesia do concelho de Paredes, cidade de onde é natural o ex-ciclista Cândido Barbosa, apelidado de “Foguete de Rebordosa” por via dos seus vigorosos sprints, atualmente na presidência da Federação Portuguesa de Ciclismo, ali nasceram alguns atletas que muito têm dado à modalidade. Um bom exemplo é o ex-ciclista profissional José Barros, conhecido no pelotão pela alcunha de “Speedy González” face às suas qualidades de sprinter/rolador que lhe valeram alguns triunfos assinaláveis. Quando, aos 29 anos, deu por concluída a sua carreira, pouco tempo depois passou a exercer as funções de diretor desportivo, cargo que desempenha até à data, estando de momento ao comando da Inovocorte Cycling, uma equipa do escalão Sub-23 da JB Cycling Clube Ciclismo Lordelo, instituição desportiva da qual é presidente.
Obviamente que a grande figura do meio ciclista de Lordelo é o grande Ribeiro da Silva, o “Português Voador”, prematuramente desaparecido num acidente de viação na localidade de Lagoas, no concelho de Lousada. O ciclista, que tinha apenas 23 anos, conduzia a sua mota quando a roda da frente embateu na traseira de uma camioneta. Com o impacto da colisão, bateu violentamente com a cabeça no taipal do veículo de mercadorias e não resistiu aos ferimentos, falecendo pouco tempo depois. Num instante perdia-se um homem simples e um campeão ainda precoce e a quem se augurava um futuro brilhante. Com o país mergulhado num profundo luto, o seu funeral atraiu milhares de pessoas que prestaram a última homenagem ao grande campeão. O malogrado ciclista tem uma estátua em sua honra numa praça com o seu nome, onde anualmente é depositada uma coroa de flores aquando da realização do Troféu Ribeiro da Silva.

Possuidores de um espólio desportivo assinalável, os familiares de Ribeiro da Silva, nomeadamente os sobrinhos, têm uma enorme devoção àquele que foi um exemplo de vida e um atleta fora de série. Desde bicicletas, equipamentos a troféus, todas as peças são guardadas religiosamente, mas algumas delas no Café Ribeiro da Silva, conhecido pelas famosas francesinhas. Mesmo tratando-se de um prato típico originário da cidade do Porto, a famosa sanduíche recheada com carnes de porco e coberta com molho picante foi adotada por todo o território português, variando na sua confeção. E é naquele espaço que decorrem os convívios à mesa com as histórias do famoso ciclista como tema principal. Desta última vez o PortalR3 esteve à conversa com o proprietário daquele espaço gastronómico, que fez questão de nos mostrar algumas das peças aqui exibidas, autênticas relíquias de museu de enorme valor sentimental.
Inovocorte Cycling, um projeto com pedalada
O ciclismo em Portugal continua na sua vigorosa pedalada, fruto da dedicação de muitos, principalmente através do apoio de entidades oficiais, patrocinadores e demais parceiros que fazem da modalidade um veículo promocional como poucos. No caso em apreço, trazemos à estampa, como já referimos, uma coletividade sediada na freguesia de Lordelo, no concelho de Paredes, que tem chamado a si algum protagonismo no desenvolvimento do ciclismo jovem. A JB Cycling Clube Ciclismo Lordelo, associação fundada em dezembro de 2021, é um exemplo da persistência de alguns, nomeadamente através do seu presidente José Barros.

Não tem sido fácil, nem nunca será fácil. A modalidade já viveu dias bem melhores, mas as despesas são muitas e as receitas dificilmente cobrem a totalidade dos gastos. Os combustíveis em Portugal ultrapassaram tudo o que era imaginável e o restante – nada de bom – vem por acréscimo. Felizmente, as entidades e os patrocinadores que sustentam o projeto têm cumprido com o combinado e a equipa Inovocorte Cycling continua a sua missão de formar atletas. Mais do que isso, tratando-se de uma formação vocacionada para os jovens corredores dos 18 aos 22 anos, tem a preocupação de incutir e apontar-lhes o caminho certo de preparação para a vida futura, que, necessariamente, passa pela exigência do aproveitamento escolar.
A última corrida em que o conjunto de Lordelo esteve envolvido, disputada no passado domingo, foi também de homenagem a um ex-ciclista profissional. Denominada Grande Prémio de Ciclismo Mortágua – Pedro Silva, somando já 29 edições, relembra aquele que foi o fundador do Velo Clube do Centro, associação desportiva sediada em Mortágua, no distrito de Viseu, e dispõe da equipa profissional Tavfer – Ovos Matinados, que compete no escalão Continental UCI. Pedro Silva foi o mentor de um projeto vitorioso, tendo fundado o clube em 1999, contando com participações honrosas nas maiores provas do calendário internacional nomeadamente na Volta a Espanha, Volta a Itália e Campeonatos do Mundo, entre outras.
Pedro Silva destacou-se como um dos melhores ciclistas portugueses das décadas de 1980 e 1990, sendo um dos sprinters de referência com inúmeras vitórias em Portugal e no estrangeiro. Depois de terminada a carreira de ciclista manteve uma intensa ligação à modalidade, com especial dedicação às camadas jovens. Enquanto atleta, somou 105 vitórias, incluindo 12 triunfos em etapas da Volta a Portugal. Considerado um velocista de excelência, exibiu o seu talento ao longo de uma quinzena de anos, para depois enveredar pelo dirigismo desportivo com nota máxima.
O categorizado ciclista viria a falecer em julho de 2021, aos 54 anos, vítima de uma longa luta contra uma doença oncológica. O método criterioso com que geriu o Velo Clube do Centro transformou a coletividade mortaguense num dos grandes exemplos desportivos, sendo bastante acarinhada desde a sua criação, nomeadamente pelo município local. A sua equipa principal é liderada pelo ex-corredor Gustavo Veloso, um espanhol natural da Galiza, praticamente radicado no nosso país, e vencedor de duas Voltas a Portugal, a primeira em 2014 e logo de seguida em 2015. Veloso possui um currículo invejável, tendo vencido em 2015 o Tour do Rio, no Rio de Janeiro, ao serviço da então equipa W52-Quinta da Lixa, curiosamente liderada por José Barros, agora ao comando da Inovocorte Cycling.
O Desporto é apenas um meio para elevar a qualidade da cidadania, pois são poucos aqueles que conseguem atingir o topo, tanto mais que o ciclismo exige muitos e duros sacrifícios. Obviamente que os predestinados podem sonhar com o sucesso e há casos de profissionais que atingiram notoriedade na modalidade, exemplos, entre outros, de João Almeida, António Morgado e dos irmãos Ivo e Rui Oliveira, todos corredores da UAE Team Emirates. Os companheiros portugueses do mais recente vencedor da Volta a França, o esloveno Tadej Pogacar, gozam de um estatuto bem difícil de atingir, mas os impossíveis não existem. Por isso a Inovocorte Cycling, bem como outras formações, procuram aprimorar as qualidades dos seus atletas. Os talentos existem e eles surgem quando menos se espera, seja no ciclismo ou em qualquer outra modalidade de competição.
Terminamos a falar dos jovens, como jovem foi Ribeiro da Silva quando partiu da vida terrena. Joaquim Agostinho faleceu com mais idade, mas também muito cedo. Dois exemplos de dedicação, enormes campeões que honraram Portugal. Recordá-los é um enorme orgulho e um profundo sentimento que prevalecerá ao longo dos tempos.
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

