
Durante mais de quatro décadas, quem passava pela Praça Cônego Lima, no centro, dificilmente resistia ao aroma que vinha de um carrinho de cachorro-quente.
As filas logo se tornaram parte da paisagem e transformaram Neusa Rodrigues Pinheiro em uma das personagens mais conhecidas da cidade.
Hoje, aos 72 anos, ela continua fazendo o que mais gosta. A poucos metros de onde tudo começou, recebe em sua lanchonete antigos clientes que agora chegam acompanhados dos filhos e até dos netos. “Tem gente que entra por esta porta e fala: ‘Eu comia seu cachorro-quente quando era criança’. Isto não tem preço”, conta.
Balas de coco
Natural de Quatá, no interior paulista, Neusa chegou a São José dos Campos aos 16 anos. Casou-se aos 20 e, já com a filha Elizandra, começou a complementar a renda da família vendendo balas de coco pelas ruas da cidade.
Durante oito anos, fez diariamente o trajeto entre o Jardim Diamante e o centro, até que, em 1984, uma simples observação mudou sua vida. “Olhei para aquela praça e pensei: ‘Que praça linda, que sombra gostosa. Por que não ficar aqui?'”
Ela procurou a Prefeitura para obter uma licença e tornou-se a primeira mulher ambulante de São José dos Campos, mas com outro produto ainda pouco consumido pelos joseenses na época, o cachorro-quente.
Tradição

O início foi tímido, mas durou pouco. “Em pouco tempo eu já vendia uma média de 1.500 lanches por dia. Meu recorde foi de 2.700, das oito da manhã às sete da noite.” As filas passaram a fazer parte da rotina da Praça Cônego Lima.
Ao longo de mais de quatro décadas, a receita praticamente não mudou. “Nem consigo mudar. No começo eu cortava tomate, cebola… tudo na mão. Hoje tenho equipamentos que ajudam, mas o sabor continua o mesmo”, confessa Neusa.
O carrinho se transformou em um ponto de encontro e acabou fazendo parte da história de muitas famílias. Uma cliente procurou Neusa recentemente para contar que estava comemorando 26 anos de casamento.
O casal havia se conhecido justamente na fila do cachorro-quente da Praça Cônego Lima. “Fiquei muito emocionada. Que coisa mais linda, meu Deus.”
Reencontro
No início dos anos 2000, Neusa deixou o lugar onde construiu sua fama. Ela passou pelo Mercado Municipal e pela Rodoviária Velha, mas nunca escondeu a saudade. “Nunca tirei o coração da praça”, afirma Neusa.
Até que em 2025 alugou um imóvel ao lado da mesma praça onde tudo começou. A nova lanchonete foi inaugurada em 27 de julho, aniversário de São José dos Campos, simbolizando seu retorno ao lugar onde construiu sua história.
Gratidão
Hoje, as filhas Elizandra e Elizana, ambas formadas em Administração, ajudam a conduzir o negócio iniciado pela mãe. Neusa diz que nunca sonhou em construir uma rede de lanchonetes. “Hoje meu sonho é ter saúde. O que eu mais gosto de fazer é trabalhar.”
Quando olha para trás, lembra das dificuldades, mas também da felicidade que encontrou pelo caminho. “Foi uma vida sofrida, mas você acredita que dá saudade? Eu faria tudo de novo”, confessa Neusa.
A receita que conquistou gerações nunca mudou. Mas, para ela, o principal ingrediente sempre foi outro. “Eu aprendi a valorizar as pequenas coisas. Todo dia agradeço a Deus. A alegria não está no muito ou no pouco. Ela está dentro da gente”, afirma.
Joseense de coração
Em 2025, Neusa recebeu o título de Cidadã Joseense, reconhecimento por uma história que acabou se confundindo com a da própria cidade. Ela fala de São José dos Campos com entusiasmo.
“São José é uma cidade maravilhosa. Tem emprego, cresce a cada dia e está cada vez mais bonita. É uma alegria fazer parte desta história.”
Assim como as filas que um dia se formaram na Praça Cônego Lima, a trajetória de Neusa atravessou gerações. E continua reunindo pessoas em torno de um sabor que, para muitos joseenses, tem gosto de infância, de encontros e da própria história da cidade.
O texto faz parte da série Talentos de São José, produzida em comemoração aos 259 anos de São José dos Campos. Confira aqui a programação de aniversário.

