
Depois de mais uma ida a Santiago de Compostela, em Espanha, e da presença em Yzeure, França, nas comemorações dos 80 ano da VeloSolex, a associação de dedicados e empenhados solexistas da Maia promoveram o seu primeiro passeio a Fátima, cidade sagrada do Centro de Portugal. O local de peregrinação é um dos postais mais icónicos do país, pois contempla a Capelinha das Aparições, onde, reza a história, a Virgem Maria apareceu em 13 de maio de 1917. A história foi relatada por três pastorinhos, Francisco, Jacinta e Marta, que guardavam o rebanho à sombra das azinheiras de um lugar chamado Cova da Iria.
Desde então até aos dias de hoje, a cidade de Fátima tornou-se num dos locais de culto mais apreciados em todo o mundo. Paulo VI, em 1967, João Paulo II, em 1982, 1991 e 2000, bem como Bento XVI, em 2010, foram os Papas que marcaram presença nas celebrações religiosas do 13 de maio. É verdadeiramente impressionante a devoção a Nossa Senhora de Fátima, não só na data das aparições, como ao longo de todo o ano. Cumprem-se promessas, reza-se pela saúde dos familiares e pede-se a Deus que devolva a paz a um mundo cada vez mais feito de guerras. Cada um de nós, mais viajantes do que peregrinos, também se recolheu junto à imagem da Virgem Maria e fez as suas orações.
A “Senhora vestida de branco” inspirou-nos nesta nova aventura, já comum a um grupo de indefetíveis amantes das VeloSolex. Para os menos identificados com estas máquinas desenvolvidas na década de 40 pela engenharia francesa, tratam-se de velocípedes com motor auxiliar de combustão. Com uma velocidade máxima permitida de 25 km/h, naturalmente que estas viagens são muito demoradas, mas a ideia é mesmo essa, pois privilegia-se o convívio na estrada e, como é óbvio, à mesa. Estes tipos de passeios obedecem sempre a um estudo prévio do trajeto, dos locais de pernoita e dos das refeições, pelo que a logística envolve várias reuniões preparatórias para que tudo corra de feição.

Basta dizer que o nosso grupo percorreu em três dias cerca de 300 quilómetros desde a Maia, cidade do distrito do Porto, até Fátima, idêntica distância feita há algum tempo no passeio a Finisterra, em Espanha, com passagem obrigatória por Santiago de Compostela, outro local de culto dos católicos. Aliás, tal como acontece nas peregrinações a Fátima, por norma a pé, o caminho até Santiago é um dos mais procurados, sendo também muito comum para o efeito o uso da bicicleta. Bem mais fácil para os mais experimentados, pois o percurso a pé implica cuidados redobrados, sendo frequente o acompanhamento em postos de socorro aos peregrinos por enfermeiros, normalmente para tratamento de lesões nos pés.
Sempre a rolar… com poucos furos
Se, por vezes, em passeios mais curtos, os problemas mecânicos nas VeloSolex dão bastante que fazer – o que vale é que temos o nosso Nuno Cordeiro – o Melhor Mecânico do Mundo e Arredores -, assim mesmo que ele é mesmo grande especialista, desta feita não houve avarias de maior. Uns furos, poucos, são coisa que se repara em poucos minutos, pelo que a viagem até Fátima foi feita dentro dos horários previstos para cada paragem. Dado este tipo de veículos não poder circular em vias rápidas, o itinerário, por sinal bem agradável, foi efetuado por artérias secundárias junto ao mar. Nesta altura do ano, com a aproximação do verão, o calor faz-se sentir com intensidade e a preocupação com os incêndios florestais é já uma preocupação acrescida para os governantes.
Aliás, muito recentemente um pouco por toda a Europa, as temperaturas excessivamente altas fizeram-se sentir bastante e os alertas já soaram. Em Portugal, principalmente na Zona Centro e Alentejo, os termómetros assinalaram os 40 graus Celsius, estando prevista uma segunda vaga de calor que, segundo as previsões meteorológicas, poderá chegar aos 45 graus. Todos os anos há o cuidado da chamada de atenção para as limpezas nas áreas mais propícias aos incêndios, mas a falta de meios no terreno é uma lacuna persistente e que os sucessivos governos deixam, ou parecem deixar, os imprevistos ao sabor do vento. E, em boa verdade, Portugal é um país em que os ventos atingem velocidades consideráveis, acentuando mais o risco das tragédias, que já aconteceram por diversas ocasiões.
Bem, mas estamos a falar de uma viagem agradável e de franco convívio, aguardando que os senhores governantes e a oposição se entendam nas soluções para Portugal. Como canta o popular músico Pedro Abrunhosa, portuense de gema… vamos fazer o que ainda não foi feito. E ainda há muito para fazer. Depois de uma travessia em ferry boat da Torreira para São Jacinto – região de Aveiro – cumprimos a primeira das três etapas até Fátima em Mira. Trata-se de uma simpática vila do distrito de Coimbra que revela indícios de ocupação pré-histórica e local de grande fluxo turístico dada a qualidade das suas praias de mar, que este ano já receberam o Galardão Cinco Estrelas Região 2026.
Já instalados num hotel de bom nível, com uma excelente piscina ao ar livre, a preocupação foi logo tratar de dar um jeito às máquinas, que é como quem diz proceder a várias afinações nos platinados e nos carburadores. Coisas simples resolvidas por mãos hábeis, mas necessárias para evitar imprevistos. Aliás, os solexistas estavam sempre acompanhados de perto por um carro de apoio, no caso uma carrinha de caixa grande devidamente equipada com material sobressalente, caso de câmaras de ar e de pneus, mais outro tipo de peças mecânicas de substituição. E, logicamente, uma arca frigorífica com cerveja bem fresquinha, para lá de umas sanduíches de queijo com fiambre. É que isto de andar de VeloSolex, mesmo que só se tenha de dar ao pedal em subidas acentuadas, também cansa e é preciso repor calorias ao fim de algum tempo.
À noite, depois do jantar e antes do descanso, fomos agradavelmente surpreendidos por um rancho folclórico de música tradicional portuguesa, que animou as centenas de pessoas presentes, especialmente os estrangeiros, na sua larga maioria de nacionalidade franceses. E até houve tempo para um pezinho de dança, pois os dançarinos e músicos da banda fizeram questão de chamar o público para as tradicionais brincadeiras. E assim se cumpriu o primeiro dia de viagem, que terminou com muita animação. Depois de uns bons 100 quilómetros percorridos o dia revelou-se bem positivo, quer em relação ao passeio, como nas atividades que se proporcionaram no hotel, a começar na piscina exterior e a terminar em excelente ambiente de convívio.
Paragem na Figueira da Foz, antes de Leiria
Manhã bem cedinho arrancamos para a segunda etapa que nos começou por levar por uma via em terra até à estrada nacional rumo a Leiria. Um troço algo complicado para os velocípedes e a obrigar a cuidados redobrados na condução. Alguma poeira e os desníveis de uma via em construção fizeram alguns estragos e eu que o diga, tanto mais que a minha VeloSolex, a partir daí, nunca mais teve um rendimento normal. Basta dizer que, neste momento, ainda está na oficina para a respetiva reparação e afinações. Mesmo a meio gás, o percurso até Leiria lá foi feito, com paragem obrigatória na Figueira da Foz. Cidade costeira da Região das Beiras, a Figueira já foi reconhecida como a “Rainha das Praias de Portugal” pelo charme do turismo urbano, que já remonta há alguns anos, assim como pelo dourado do areal.
Imperdível é mesmo uma boa mariscada num dos muitos restaurantes da zona junto às praias. Mariscos sempre frescos e bem apetitosos fazem a delícia dos turistas, mas não só, ainda que os deliciosos bichinhos da costa não estejam ao alcance de qualquer bolso. Mas como uma vez não são vezes lá fomos degustar uns bons camarões e umas sapateiras recheadas, sempre acompanhadas de umas quantas cervejas bem geladas. Como se diz por aí, um chope cai sempre bem. Se de marisco estamos conversados, que dizer de uma boa caldeirada ou de um rodízio de peixe? Tudo produtos de excelência de uma zona rica em pescado, que o mar traz às mesas. Por esta altura as embarcações chegam carregadas de sardinha, pois para além de estarmos no tempo delas, é tempo das Festas Populares. O Santo António já lá vai, mas temos aí o São João à porta, mais o São Pedro para acabar. É sempre a reinar com os Santos Populares.

Com o estômago reconfortado, lá seguimos rumo a Leiria, o concelho que recebeu em 1142 o foral inaugural de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. Explicando melhor, a carta de foral definia as normas pelas quais a população se regia, no caso em concreto para estimular a colonização da área. Aliás, alguns desses manuscritos reais foram sendo descobertos ao longo dos tempos, preciosidades que se encontram conservadas em vários museus. Por exemplo, o foral manuelino, com a assinatura do rei D. Manuel, que legislava os deveres no campo do direito fiscal, criminal e civil da autarquia, é o mais longo da história de Leiria, tendo-se mantido em vigor durante mais de três séculos, entre 1510 e 1822.
História à parte, em Leiria come-se boa carne, especialmente um saboroso misto de grelhados. Já instalados numa unidade hoteleira da cidade, tínhamos reserva marcada para degustar umas boas febras de porco e umas costeletas à maneira, que por sinal estavam deliciosas. Mas não só, pois o frango, a picanha e a maminha também fazem parte da rica ementa, acompanhada com arroz, batata frita e salada. Para dar um toque brasileiro só falta mesmo o feijão preto, mas por cá não há muito esse costume. Ou melhor, até há, mas para isso o melhor mesmo é fazer uma visita a uma das tradicionais casas geridas e servidas pelos nossos caros amigos que chegaram do outro lado do Atlântico.
Com Fátima à vista o tempo é de reflexão, mas não só
Chegados ao terceiro e último dia da nossa viagem, já um pouco cansados de andar tanto tempo em cima de um selim, lá tivemos Fátima à vista, no distrito de Santarém. Local de peregrinação conhecido em todo o mundo, a linda e acolhedora cidade da Zona Centro de Portugal é um local sagrado que, para além do Santuário de Fátima e da Capelinha das Aparições, inclui a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, com os seus anjos dourados, bem como a moderna igreja da Santíssima Trindade. São muitos os artefactos religiosos exibidos no Museu de Arte Sacra e Etnologia, mas um pouco por todo o lado há todo um comércio dedicado à santidade, como terços para rezar, velas para ofertar a Nossa Senhora, em suma, todo o tipo de material que sirva para cumprir uma promessa, um desejo, ou levar como recordação.
Encontrar Fátima é estar em paz com Deus, mesmo para os não muito crentes. O respeito, o silêncio, aquela sensação de bem-estar connosco próprios e com os outros transmite-nos uma sensação de harmonia difícil de explicar. Sentimo-nos pequenos ao lado do divino – eu senti isso – e rezamos. Pedimos saúde para os nossos familiares e amigos, rogamos a Deus para que a desgraça não nos atinja. Há quem pague promessas no chamado Caminho dos Joelhos até à Capelinha das Aparições à chuva e ao frio, sempre com a oração presente. E contam-se muitas histórias relacionadas com a aparição da Virgem Maria e do que pretendeu transmitir aos pastorinhos. Ainda hoje se tenta decifrar o “Segredo de Fátima”, mas que, na sua essência, tem a ver com os apelos à oração, ao sacrifício e à penitência, embora haja quem fale em revelações de ordem política, como a conversão da Rússia, um assunto que não sendo tabu deixou de ser tão insistentemente falado. Fátima é oração e crença, tudo o resto é conversa em desuso e sem qualquer sentido ou fundamento, a não ser que se queira cultivar o fanatismo. Nossa Senhora de Fátima é a Mãe de Deus e as preces só podem ter um sentido.
Daí, a belíssima oração:
Nossa Senhora de Fátima, Rogai Por Nós.
Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.
Terminamos, ou quase. Antes do regresso ao Norte do país fomos até ao Mister Leitão, uma casa nas proximidades do Santuário. Convém já dizer que as reservas são feitas por telefone e, preferencialmente, de véspera. O restaurante, sem mesas no interior e muito poucas no exterior, só serve sandes de leitão e logo na abertura, por volta das 12h00, o cliente depara-se com uma mensagem afixada à porta onde se lê que não há leitão, só mesmo na reabertura às 17h30… hora em que que a mensagem continua lá bem visível.
Mas, então, como é? Nada mais simples. Faz-se o tal telefonema na véspera a reservar as sandes necessárias e lá surge o tão apreciado leitão acabado de assar no forno, com pele tostada, em pão bem quente fabricado pela própria casa. Já quanto às bebidas e acompanhamento, o cliente recebe um bloco e uma esferográfica e vai-se servindo, sendo ele próprio o responsável pelas “mesas”. Serve-se, aponta e paga no final do repasto. O patrão não é nenhum santo, mas acredita que as pessoas vão ao seu espaço comercial de boa fé. Afinal estamos em Fátima e os pecados não fazem parte da ementa a não ser o desejo de uma boa refeição, mas a que que não se pode chamar gula. Apenas apetite!
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

