Necrose no quadril avança em silêncio entre adultos jovens

Condição interrompe a circulação de sangue na cabeça do fêmur e pode destruir a articulação. O uso intenso de corticoides no tratamento da Covid-19 ajudou a colocar o tema de volta nos consultórios.

(Foto: kjpargeter no Magnific)

A queixa costuma começar como uma dor na virilha que parece muscular. Um incômodo ao cruzar as pernas, uma fisgada ao subir escadas, uma rigidez que aparece e some ao longo do dia. Muita gente trata o sintoma como tendinite ou estiramento, faz repouso, toma anti-inflamatório e segue a rotina.

Em parte dos casos, porém, o que está por trás dessa dor é a morte do tecido ósseo dentro da articulação, um processo que pode levar ao colapso do quadril.

A condição se chama osteonecrose da cabeça do fêmur, também conhecida como necrose avascular. Diferente da artrose, que costuma aparecer com o envelhecimento, ela atinge com mais frequência adultos entre 20 e 50 anos, segundo a Revista Brasileira de Ortopedia.

São pessoas em plena vida produtiva, muitas vezes ativas, que demoram a associar a dor a algo grave justamente porque o quadril sempre foi tratado como um problema de idoso.

O que torna a doença perigosa é o avanço silencioso. Em boa parte dos pacientes, a fase inicial passa quase despercebida, com uma dor que melhora sozinha depois de alguns meses.

Esse alívio temporário cria uma falsa sensação de cura, enquanto o osso continua perdendo estrutura por dentro. Quando a dor volta para ficar, a articulação já pode estar comprometida.

Como o osso do quadril simplesmente morre

A cabeça do fêmur é a parte arredondada que encaixa na bacia e forma a articulação do quadril. Para se manter viva, ela depende de um fluxo constante de sangue que irriga o tecido ósseo. Quando essa circulação é interrompida, as células do osso morrem, e a estrutura que sustentava o peso do corpo começa a ceder.

De acordo com ortopedistas do COE, clínica médica ortopédica em Goiânia, o resultado aparece em etapas. Primeiro, o osso enfraquece sem sinais visíveis em radiografias simples. Depois, surgem microfraturas.

Por último, a superfície da cabeça femoral afunda, perde o formato esférico e deixa de deslizar de maneira suave dentro da articulação. A partir daí, o desgaste da cartilagem se acelera e o quadro evolui para uma artrose secundária, dessa vez de causa conhecida.

Entre os fatores que interrompem essa irrigação estão o uso prolongado de corticoides, o consumo excessivo de álcool, traumas na região, doenças do sangue, quimioterapia e distúrbios do metabolismo das gorduras.

Em muitos pacientes, o acometimento é bilateral, ou seja, atinge os dois quadris ao mesmo tempo, o que amplia o impacto na locomoção.

A doença não escolhe apenas pacientes com os fatores mais conhecidos. Quem usou corticoides por causa de doenças autoimunes, transplantes ou quadros respiratórios graves entra no grupo de risco, assim como pessoas com histórico de consumo elevado de álcool.

O ponto em comum costuma ser a idade, quase sempre abaixo dos 50 anos, faixa em que a dor articular é atribuída a esforço ou má postura, raramente a uma lesão estrutural do osso.

Por que a doença voltou ao centro das atenções

O interesse renovado dos ortopedistas pela osteonecrose tem relação direta com a pandemia. Durante o tratamento da Covid-19, especialmente nos casos graves e nas internações, os corticoides foram usados em larga escala para conter a resposta inflamatória. Esses medicamentos salvaram vidas, mas o uso em doses altas e por períodos prolongados figura entre os principais gatilhos da necrose óssea.

A relação entre o coronavírus e a necrose não é inédita. Depois da epidemia de SARS, em 2003, a medicina registrou taxas de osteonecrose de até 58% em pacientes que receberam altas doses de corticoides, segundo levantamentos da época. A experiência acendeu um alerta que voltou a fazer sentido a partir de 2020.

Há ainda uma segunda hipótese em estudo. A própria infecção pelo SARS-CoV-2 tende a favorecer a formação de coágulos, e essa característica pró-trombótica pode obstruir os pequenos vasos que alimentam a cabeça do fêmur.

Uma revisão sistemática publicada em periódicos brasileiros, reunindo estudos entre 2021 e 2024, apontou a osteonecrose femoral como uma das sequelas ortopédicas que mais cresceram em relevância no período, com predomínio de casos bilaterais.

Boa parte desses diagnósticos só chega ao consultório agora, anos depois da infecção. O paciente conviveu com a dor, tentou fisioterapia, trocou de calçado, reduziu a atividade física e procurou um especialista apenas quando o quadril começou a travar.

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Para Dr. Tiago Bernardes, médico especialista em quadril em Goiânia, esse intervalo entre o primeiro sintoma e a confirmação é justamente o tempo em que a doença ganha terreno e estreita as opções de tratamento.

Os sintomas que enganam o paciente

O maior obstáculo ao tratamento é o disfarce. A dor da osteonecrose costuma se concentrar na virilha, pode irradiar para a coxa ou para a lateral do quadril e é facilmente confundida com lesão muscular, tendinite ou até dor de origem na coluna. Como o desconforto vai e volta, o paciente raramente procura ajuda no momento certo.

A radiografia comum também contribui para o atraso. Nos estágios iniciais, o exame simples não mostra a lesão, o que reforça a impressão de que não há nada de grave.

O diagnóstico depende da ressonância magnética, capaz de revelar a morte óssea antes do colapso da articulação, quando ainda existem tratamentos para preservar o quadril.

Diante de uma dor na virilha que persiste por semanas, melhora e retorna, ou que piora ao apoiar o peso na perna, procurar um ortopedista cirurgião de quadril com experiência específica na articulação faz diferença no resultado.

Esse profissional sabe quando pedir a ressonância e como interpretar sinais que passam despercebidos em uma avaliação genérica.

Do diagnóstico precoce ao colapso da articulação

O estágio em que a doença é descoberta define o caminho do tratamento. Identificada cedo, antes do afundamento da cabeça femoral, a osteonecrose pode ser tratada com medidas que tentam preservar a articulação, como a descompressão do núcleo, procedimento que alivia a pressão interna e estimula a formação de novo tecido ósseo.

Quando o diagnóstico chega tarde, com a cabeça do fêmur já deformada, as opções se estreitam. Nesses casos, a substituição da articulação por uma prótese costuma ser o desfecho, mesmo em pacientes jovens.

A prótese resolve a dor e devolve a mobilidade, mas tem vida útil limitada, o que significa que uma pessoa operada aos 35 ou 40 anos provavelmente passará por ao menos uma cirurgia de revisão ao longo da vida.

A pressão sobre o sistema de saúde ajuda a explicar por que o tempo conta. Dados do DATASUS mostram que, entre 2012 e 2021, foram realizadas mais de 251 mil artroplastias de quadril pelo SUS, com a Região Sudeste concentrando 50,8% dos procedimentos e São Paulo entre os estados de maior volume.

Em parte da rede pública, a espera por uma prótese de quadril chega a anos, o que torna o diagnóstico no estágio inicial ainda mais valioso, já que abre espaço para tratamentos menos invasivos antes que a fila e a doença avancem juntas.

O que observar antes que a dor se torne irreversível

Segundo ortopedistas da Unimed, o reconhecimento dos primeiros sinais é o ponto que mais influencia o resultado. Dor na virilha que persiste por semanas, desconforto que piora ao apoiar o peso no membro e histórico recente de uso de corticoides ou de internação por Covid-19 são alertas que justificam uma avaliação especializada, mesmo quando a radiografia não aponta nada.

A automedicação é o caminho mais comum para o agravamento. Anti-inflamatórios mascaram a dor sem interromper a morte do osso, e a sensação de melhora adia a procura por ajuda. Quem teve Covid-19 grave, usou corticoides em doses altas ou convive com dor no quadril que não cede merece atenção redobrada, independentemente da idade.

A osteonecrose da cabeça do fêmur deixou de ser uma doença restrita a grupos específicos para se tornar uma preocupação mais ampla, fruto de um período em que milhões de pessoas passaram por tratamentos intensivos.

Entender que dor de quadril em adulto jovem não é algo a ser ignorado pode ser a diferença entre preservar a articulação e conviver com uma prótese pelo resto da vida.

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