
Embora o conceito ESG tenha ganhado grande projeção mundial principalmente na década de 2020, seus fundamentos já vinham sendo discutidos e estruturados muito antes disso.
O termo ESG, Environmental, Social and Governance, surgiu formalmente em 2004, a partir do relatório Who Cares Wins (“Quem se importa ganha”), fruto de uma iniciativa liderada pelo Organização das Nações Unidas, por meio do Pacto Global, em parceria com o Banco Mundial.
Pouco depois, em 2006, a ONU lançou os Princípios para o Investimento Responsável (PRI), consolidando diretrizes voltadas à integração de fatores ambientais, sociais e de governança nas estratégias institucionais e financeiras.
Ainda assim, foi especialmente a partir da década de 2020, impulsionado pelas transformações sociais, pelas crises ambientais e pelos reflexos da pandemia, que o ESG passou a ocupar o centro das estratégias de grandes corporações e fundos de investimento em escala global.
Entretanto, muito antes de a sigla ganhar força no mercado e se consolidar como tendência corporativa, já existiam iniciativas práticas voltadas à sustentabilidade dentro das organizações.
Em 2019, durante meu curso de mestrado em percepção socioambiental, tive a oportunidade de implementar, coordenar, sistematizar e analisar um plano institucional de sustentabilidade aplicado dentro de uma instituição de ensino superior. Mais do que uma proposta ambiental, o projeto envolvia múltiplas dimensões: conscientização cultural, responsabilidade coletiva, participação institucional e gestão sustentável de recursos.
Naquele momento, ainda que o ESG não estivesse tão popularizado quanto hoje, seus princípios já se faziam presentes na prática cotidiana de instituições preocupadas não apenas com métricas ambientais, mas também com pessoas, cultura organizacional e responsabilidade social.

Durante a aplicação do plano de sustentabilidade, uma percepção se mostrou evidente: independentemente de classe social, função ou nível hierárquico, muitas concepções sobre meio ambiente já estavam sedimentadas no imaginário coletivo.
Ainda que, em alguns casos, de maneira superficial, havia uma compreensão comum sobre preservação, desperdício, responsabilidade e impactos ambientais.
A questão central, então, não era simplesmente “mudar mentalidades”, mas compreender como transformar percepções difusas em práticas contínuas dentro da instituição.
Entre o discurso e a ação existe um espaço complexo, atravessado por cultura organizacional, interesses econômicos, hábitos cotidianos e objetivos institucionais. Autores como Milton Santos já defendiam que qualquer transformação institucional precisa considerar o território humano existente antes da implementação de mudanças.
Ouvir as pessoas, compreender contextos e reconhecer realidades locais não é apenas uma estratégia de gestão; é condição essencial para qualquer iniciativa que deseje produzir impacto real. E é justamente nesse ponto que o ESG revela sua dimensão mais concreta.
Um plano de sustentabilidade dentro de uma empresa não atua apenas por consciência ambiental. Ele também dialoga com sustentabilidade econômica, reputação institucional e posicionamento social.
Redução de desperdícios, otimização de recursos, adequação às conformidades ambientais e reconhecimento público são fatores que fortalecem a imagem e a própria permanência competitiva das organizações.
No caso das instituições de ensino, por exemplo, iniciativas sustentáveis também comunicam pertencimento aos anseios da sociedade contemporânea.
Demonstram que aquela organização compreende seu papel social e reconhece que educação e responsabilidade ambiental caminham juntas.
Há quem defenda que a questão ambiental não constitui atividade-fim de todas as áreas. Discordo dessa perspectiva. A questão ambiental diz respeito a todos, justamente porque seus impactos ultrapassam fronteiras econômicas, sociais e geográficas. Uma enchente não escolhe quem atingir. Um deslizamento não diferencia classe social.
Um terremoto, um tsunami, uma erupção vulcânica ou uma crise climática não reconhecem barreiras institucionais. Os efeitos ambientais alcançam coletividades inteiras e, por isso, não podem ser tratados como responsabilidade isolada de determinados setores.
Em resumo, o termo “ESG” pode até soar menos chamativo hoje, mas a responsabilidade ambiental, social e de governança corporativa deixou de ser um diferencial e tornou-se obrigatória para a perenidade de qualquer negócio.
Pensar ESG é, antes de tudo, pensar continuidade. As ferramentas mudam. Os processos evoluem. As métricas se aperfeiçoam.
Novos certificados surgem. Mas existem princípios que não deveriam ser descartados conforme as tendências do mercado. Quando há pessoas no centro das decisões, sustentabilidade deixa de ser moda e passa a ser compromisso permanente.

Talvez o maior desafio das organizações contemporâneas não seja criar discursos inovadores sobre ESG, mas impedir que conceitos essenciais sejam esquecidos em meio à velocidade das transformações institucionais. Sustentabilidade não é ruptura total.
É aprimoramento contínuo.

