Escoliose em adultos cresce no radar médico após queixas de dor e rigidez

Especialistas observam aumento de casos diagnosticados depois dos 50 anos, quando a curvatura já provoca limitação de movimento e dor lombar persistente

Especialistas observam aumento de casos diagnosticados depois dos 50 anos, quando a curvatura já provoca limitação de movimento e dor lombar persistente
Especialistas observam aumento de casos diagnosticados depois dos 50 anos, quando a curvatura já provoca limitação de movimento e dor lombar persistente. (Foto: Freepik)

A primeira queixa raramente é a coluna torta. Na maioria dos casos, o paciente adulto chega ao consultório falando de outra coisa: uma dor lombar que não cede, uma rigidez ao se levantar pela manhã, a sensação de cansaço nas pernas depois de uma caminhada curta.

Só depois, no exame de imagem, aparece o desvio lateral da coluna que explica o quadro. A escoliose, que durante décadas foi tratada como um problema de adolescentes, vem ganhando espaço nas avaliações ortopédicas de pessoas mais velhas.

Esse deslocamento de foco tem uma razão demográfica. O Brasil envelhece rápido, e o envelhecimento da população traz junto o desgaste das estruturas da coluna.

Estimativas citadas pela Revista Brasileira de Ortopedia apontam que a parcela idosa deve corresponder a cerca de 19% da população brasileira em 2050.

Quanto mais gente nessa faixa etária, maior o número de pacientes com alterações degenerativas da coluna vertebral, e a escoliose do adulto é uma delas.

Dois caminhos para a mesma curva

A escoliose em adultos não tem uma origem única. Os ortopedistas trabalham com dois cenários distintos. No primeiro, a curvatura começou na juventude, passou despercebida ou foi subestimada, e continuou progredindo de forma lenta ao longo da vida.

No segundo, chamado de escoliose degenerativa ou “de novo”, o desvio surge na idade adulta, em geral depois dos 50 anos, como resultado do desgaste assimétrico dos discos intervertebrais e das articulações da coluna.

Os dois caminhos terminam em sintomas parecidos, mas a escoliose degenerativa costuma ser a mais associada à procura tardia por atendimento. Ela aparece em quem nunca teve qualquer indício do problema na juventude e, por isso, não imagina que a dor nas costas possa estar ligada a uma deformidade da coluna.

A curva se instala junto com o processo de envelhecimento e se confunde com ele.

O que o paciente sente antes de procurar ajuda

A dor lombar é o sintoma mais frequente. Estudos reunidos pela Revista Brasileira de Ortopedia indicam que ela está presente em algo entre 60% e 80% dos pacientes com escoliose degenerativa do adulto, geralmente concentrada no lado convexo da curva, onde as alterações degenerativas e a fadiga muscular se acumulam.

A rigidez vem logo atrás: a coluna perde flexibilidade, os movimentos laterais ficam limitados e tarefas simples do dia a dia passam a exigir esforço.

Há ainda um sintoma que costuma assustar e levar o paciente ao consultório: a dificuldade de caminhar. A chamada claudicação neurogênica, ligada ao estreitamento do canal vertebral, é relatada em até 90% dos casos segundo a mesma revisão.

A pessoa anda alguns metros, sente dor ou peso nas pernas, precisa parar, e o alívio vem ao sentar ou se inclinar para a frente. É um padrão que se repete e que, com o tempo, encurta a distância que o paciente consegue percorrer.

Soma-se a isso a assimetria visível do corpo. Um ombro mais alto que o outro, o quadril desalinhado, a perda de altura ao longo dos anos. Esses sinais são frequentemente percebidos por familiares antes do próprio paciente, e funcionam como o empurrão final para a busca de avaliação especializada.

Por que o diagnóstico costuma demorar

O problema central da escoliose do adulto não é a falta de tratamento, é o tempo que se perde até chegar a ele. Como os sintomas iniciais se misturam com queixas comuns do envelhecimento, muita gente convive anos com a dor antes de investigar a causa.

A coluna do adulto já atingiu a maturidade óssea e não tem a flexibilidade de uma coluna jovem, o que significa que a curva tende a se tornar mais rígida e estruturada à medida que o tempo passa.

Segundo um especialista em escoliose de Goiânia, o intervalo entre o início dos sintomas e a confirmação diagnóstica é o fator que mais pesa no resultado do tratamento, porque uma curva ainda flexível responde melhor às medidas conservadoras do que uma curva já consolidada.

A avaliação envolve exame físico, análise do histórico do paciente e radiografias da coluna, com o ângulo de Cobb usado para medir a magnitude do desvio. Quando há suspeita de compressão nervosa, exames como ressonância magnética ou tomografia entram na investigação.

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Há também um obstáculo de percepção. Por muito tempo, a escoliose foi associada quase exclusivamente a campanhas de triagem escolar voltadas a crianças e adolescentes.

O adulto que sente dor nas costas dificilmente cogita que a causa seja uma curvatura da coluna, e a própria rede de atenção tende a investigar primeiro as hipóteses mais comuns, como hérnia de disco ou artrose isolada. A escoliose acaba aparecendo como achado de um exame pedido por outro motivo.

A confirmação precoce muda o leque de opções. Em curvas detectadas antes da consolidação, o tratamento conservador ainda tem espaço real de atuação, e o paciente evita entrar no grupo em que a cirurgia se torna a alternativa mais provável.

O que o tratamento oferece em cada fase

Para a maioria dos casos leves a moderados, a conduta é conservadora. A fisioterapia ocupa o centro dessa estratégia, com foco em fortalecer a musculatura que sustenta a coluna, aliviar a dor e preservar a mobilidade.

Medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios ajudam a controlar as crises. Em situações de dor intensa causada por compressão nervosa, as infiltrações de corticoides na coluna são uma das ferramentas usadas pelos especialistas para reduzir a inflamação em pontos específicos.

Esse tipo de procedimento, popularmente conhecido como injeção vermelha para coluna travada, aplica a medicação diretamente na região afetada e costuma trazer alívio em um intervalo de 24 a 72 horas.

É um recurso para controlar a crise, não para corrigir a curva, e funciona melhor quando integrado a um plano mais amplo de reabilitação. O paciente que entende essa diferença tende a ter expectativas mais alinhadas com o que cada etapa do tratamento pode oferecer.

A cirurgia entra em cena quando o tratamento conservador deixa de ser suficiente, quando a deformidade compromete de forma importante a qualidade de vida ou quando há compressão neurológica significativa.

A literatura ortopédica descreve a escoliose degenerativa do adulto como uma condição potencialmente limitante, em que a indicação cirúrgica é frequente justamente porque o tratamento clínico, isolado, costuma ter efeito modesto nos quadros mais avançados.

O desenvolvimento de técnicas minimamente invasivas vem mudando esse cenário, com a proposta de reduzir complicações pós-operatórias e melhorar a recuperação.

Quando vale procurar avaliação

A orientação que se repete entre os profissionais é direta: dor nas costas que persiste, rigidez que limita os movimentos e qualquer assimetria perceptível do corpo merecem avaliação com um ortopedista ou cirurgião de coluna. Não para alarmar, mas porque o momento em que a curva é identificada define o caminho do tratamento.

Como aponta um dos melhores especialistas em coluna do Brasil, Dr. Aurélio Arantes, que atende em Goiânia, a escoliose do adulto raramente desaparece sozinha, e a progressão da curvatura tende a agravar os sintomas ao longo do tempo.

Em pessoas acima dos 50 anos, especialmente aquelas que já notam mudança de postura ou perda de altura, o acompanhamento periódico permite monitorar a evolução e ajustar a conduta antes que a deformidade se torne fixa.

Vale também desfazer um mal-entendido comum. Receber o diagnóstico de escoliose na vida adulta não significa, por si só, indicação de cirurgia. A maior parte dos casos é conduzida com fisioterapia, controle da dor e acompanhamento regular.

A cirurgia é reservada para situações específicas, e mesmo nelas as técnicas disponíveis hoje são diferentes das de décadas atrás. O que define o desfecho, na prática, é a combinação entre o momento do diagnóstico e a consistência do acompanhamento.

No Vale do Paraíba, onde a população idosa acompanha a tendência nacional de crescimento, esse alerta tem peso prático. Cidades como São José dos Campos, Taubaté e Pindamonhangaba concentram um número crescente de moradores na faixa etária em que a escoliose degenerativa costuma se manifestar.

A escoliose em adultos deixou de ser um diagnóstico raro ou inesperado. Ela está no radar médico, e quanto mais cedo o paciente entra nesse radar, maior a chance de manter a coluna funcional e a dor sob controle.

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