
No regresso do técnico Vítor Pereira ao Estádio do Dragão, o FC Porto colocou-se a jeito na partida da primeira mão dos quartos de final da Liga Europa. O empate a uma bola castiga uma equipa que, para além de ter cometido um erro monumental, persiste em revelar uma impressionante falta de precisão e lucidez na hora de rematar à baliza. Aos dragões falta o “killer instinct” que deixou de ter face à ausência do goleador espanhol Samu Aghehowa, com a época perdida devido a lesão grave, tendo ficado sem um matador capaz de fazer a diferença. O brasileiro William Gomes, que tem sido o abono de família dos azuis e brancos, voltou a colocar o Dragão em delírio ao abrir o marcador bem cedo, mas logo a seguir Martim Fernandes teve um daqueles lapsos que vai correr mundo. Num autêntico lance para os “apanhados”, o lateral português fez um atraso forte e rasteiro para Diogo Costa, completamente desnecessário, com a bola a entrar na baliza portista sem que o guardião portista conseguisse reparar o erro do seu colega.
Um golo e um autogolo quando apenas estavam disputados 13 minutos do encontro fizeram a história de uma eliminatória que está no intervalo. Na próxima quinta-feira, em Inglaterra, o FC Porto vai tentar na partida da segunda mão resolver a questão a seu favor, mas pelo meio tem uma complicada deslocação ao recinto do Estoril Praia para a Liga Portugal. Um jogo decisivo nas contas do campeonato, pois novo desaire – depois da perda de pontos com o Famalicão no Estádio do Dragão – poderá comprometer seriamente a questão do título nacional.
Se o técnico Francesco Farioli voltou a revolucionar o onze base para este confronto com a formação inglesa, também Vítor Pereira foi obrigado, com mais legitimidade, a proceder a alterações de vulto. Foram nove os jogadores que saíram daquela que é considerada a equipa base do Nottingham Forest, pois o conjunto inglês tem como prioridade a permanência na Premier League e está a dois escassos pontos da zona de descida. Como tal, cenários diferentes, mas de certa forma idênticos, pois a poupança dos portistas teve como objetivo essa importante partida com o Estoril Praia. Já o conjunto inglês está obrigado a pontuar com sensacional Aston Villa no intuito de tentar evitar a descida ao segundo escalão do futebol britânico. Ganhar tudo… ou perder tudo, eis a questão que se coloca aos dois treinadores.
Desperdício a abrir antes do golo prometedor
O FC Porto iniciou o jogo a todo o gás e logo na primeira jogada – mais concretamente aos 48 segundos – o atacante Terem Moffi ficou na cara do guarda-redes alemão Stefan Ortega, que defendeu o remate do nigeriano, para depois, na recarga, o extremo espanhol Borja Sainz atirar fraco e à figura. Um enorme desperdício antes do golo que se anunciava e que chegou, aos 11 minutos, por William Gomes. Oportuno, o extremo brasileiro surgiu ao segundo poste a encostar para o fundo da baliza, após um cruzamento do espanhol Gabri Veiga, solicitado em profundidade pelo dominicano Pablo Rosario.
O Estádio do Dragão, que registou mais uma enchente, entrou em ebulição, mas passados dois minutos surgiu um autêntico balde de água gelada. Sem nada que o justificasse, Martim Fernandes atrasou forte desde o meio-campo para a baliza portista, apanhando de surpresa o guardião internacional português Diogo Costa. Um autêntico lance digno dos “apanhados” da presente edição da Liga Europa. Mal refeito do desaire, o lateral portista viria pouco depois a lesionar-se num lance fortuito, sendo obrigado a abandonar o relvado, substituído de pronto pelo português Alberto Costa, contratado no início da temporada aos italianos da Juventus.
Até ao final do primeiro período não houve muito para contar, para lá da contrariedade sofrida pelos dragões ter indiciado um certo nervosismo. O jogo do FC Porto, demasiadamente lento e previsível, serviu às mil maravilhas a formação dirigida por Vítor Pereira. A propósito, refira-se que o técnico português de boa memória para os azuis e brancos, foi recebido no Dragão com pompa e circunstância e o caso não era para menos. O português foi adjunto de André Villas-Boas, atual presidente dos portistas, em 2011, ano em que o FC Porto venceu a Liga Europa, para depois assumir o comando da formação dos dragões e sagrar-se bicampeão nacional.

Substituições não surtiram grande efeito
Em desespero de causa, o técnico Francesco Farioli bem tentou alterar o rumo dos acontecimentos com as entradas em simultâneo do possante médio dinamarquês Victor Froholdt, do extremo brasileiro Pepê e do ponta-de-lança turco Deniz Gul – habituais titulares -, mas o figurino de jogo manteve-se praticamente inalterável. William Gomes ainda voltou a estar em foco ao rematar um pouco ao lado da baliza de Ortega, após jogada individual pelo corredor direito, mas logo a seguir Diogo Costa teve de se aplicar com uma estirada para defender um remate, em posição frontal, do meio campista inglês James McAtee.
O FC Porto chegou mesmo a apanhar um valente susto quando o dianteiro Igor Jesus atirou para o fundo das redes, lance visionado pelo VAR, que detetou uma falta sobre Diogo Costa por parte do brasileiro, que ainda terá tocado a bola com a mão. William Gomes, sempre ele, voltou a arrancar um vistoso remate em arco, que Ortega defendeu junto ao relvado, e Deniz Gul atirou de longe, ao lado. Em boa verdade, o FC Porto chegou a ameaçar com o segundo golo, mas fê-lo sempre mais com o coração do que propriamente com a lucidez que se exigia e que nunca teve. Froholdt andou lá muito perto ao rematar a centímetros do poste, após excelente abertura de calcanhar de Pepê, mas prevaleceu o empate a uma bola, pelo que dentro de uma semana logo se verá quem passa às meias-finais da competição.
Francesco Farioli (treinador do FC Porto): “Houve o autogolo e a lesão do Martim Fernandes e isso altera as dinâmicas do jogo ao fim de 20 minutos, tivemos de nos reconectar, mas a verdade é que na primeira parte tivemos alguns momentos em que não estivemos no nosso melhor. A este nível, quando nos colocamos em boas posições para rematar, temos de marcar. Quando é para matar, é para matar, não se pode esperar pelas oportunidades seguintes. Hoje não estivemos ao nosso nível na área adversária. Quando formos a Nottingham, vamos defrontar uma equipa que vai jogar para se qualificar. Eles mudaram muito e nós também, mas a qualidade do nosso plantel permite-nos dar minutos e oportunidades a toda a gente. Este adversário gastou 250 milhões de euros no último mercado e tem vários jogadores de topo.”
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

