
No dia em que o atacante sueco Viktor Gyokeres regressou a um palco onde foi muito feliz, o Sporting voltou a estar muito perto do êxito, o que lhe permitiria deslocar-se a Londres na próxima semana com um resultado mais animador. O nulo no marcador ajustava-se mais ao que se passou em campo, mas o balde de água fria para os mais de 50.000 espectadores presentes no Estádio José Alvalade surgiu de forma cruel no derradeiro minuto do encontro, já em período de descontos. Martinelli, que havia entrado aos 76 minutos para o lugar de Leandro Trossard, arrancou um excelente passe longo, precioso e bem colocado, que foi encontrar Havertz em posição regular diante do guardião português Rui Silva, que nada pôde fazer frente ao possante dianteiro alemão. Obviamente que este resultado deixa ainda tudo em aberto, mas a tarefa dos leões no Emirates Stadium, em Londres, será extremamente ingrata e complicada, mas o sonho persiste.
Numa partida aguardada com grande expectativa, não apenas por se tratar de um jogo de cartaz dos quartos de final da Liga dos Campeões, onde para além de Sporting e Arsenal, também se encontram Real Madrid, Bayern Munique, PSG, Liverpool, Barcelona e Atético Madrid, contava com a tão aguardada presença do atacante Viktor Gyokeres. Recorde-se que o sueco, principal responsável pela conquista dos dois últimos campeonatos por parte dos leões, teve uma saída agitada de Alvalade, recusando-se a treinar no início dos trabalhos da temporada, para depois assinar pelo Arsenal, o que rendeu mais de 60 milhões de euros aos cofres do emblema de Alvalade.
Todos queriam saber como seria a receção ao categorizado jogador que em 102 jogos efetuados pelo Sporting assinou uns impressionantes 97 golos em todas as competições. À parte uns envergonhados assobios, Gyokeres foi recebido e com palmas, à mistura com muitos cumprimentos dos seus antigos colegas e equipa técnica, dado o profundo reconhecimento pelo que deu aos leões. O sueco passou praticamente ao lado do encontro – fez um único remate, ainda que sem grande perigo, a meio da segunda parte -, continuando a revelar-se um elemento fundamental no ataque, mas não tão decisivo como o era em Alvalade. Prova disso são os escassos 17 golos que já apontou em todas as competições oficiais na atual temporada, fraco pecúlio para quem estava habituado a deixar a sua marca em quase todas as partidas enquanto futebolista dos leões.
Na tentativa de atingir pela primeira vez ao longo da sua história as meias-finais da mais importante competição europeia de clubes, o Sporting bem tentou surpreender o seu mais qualificado adversário. Não é que o Arsenal esteja a atravessar um grande momento – recentemente foi eliminado pelo Southampton, equipa do segundo escalão do futebol britânico, da Taça de Inglaterra -, mas trata-se do líder da Premier League, já com uma vantagem confortável de nove pontos sobre o Manchester City, ainda que os comandados de Pep Guardiola tenham menos um jogo. Claro que ninguém estava à espera de um resultado robusto, mas o certo é que o Sporting esteve muito perto de conseguir os seus propósitos.
Japonês Morita “fez” de Hjulmand e Maxi brilhou
Com o seu capitão Morten Hjulmand de fora a cumprir um jogo de castigo, coube ao japonês Hidemassa Morita substituir nas funções o categorizado e cobiçado médio dinamarquês. E fê-lo com enorme acerto a organizar e a distribuir a preceito o jogo na zona intermediária, mas Maxi Araújo foi a figura maior de um conjunto que se revelou muito concentrado a defender. Aliás, a nota dominante na partida foi o equilíbrio, tanto mais que o conjunto britânico, cauteloso, nunca subiu muito as suas linhas. O primeiro aviso, logo no início do encontro, foi mesmo do Sporting, com o lateral uruguaio a arrancar um estrondoso remate à baliza defendida pelo guardião espanhol David Raya. Na resposta, o extremo inglês Noni Madueke encarregou-se da marcação de um canto, levando a bola a acertar no travessão da baliza leonina.
Se bem que o controle do jogo pertencesse ao Arsenal, contudo a maior posse de bola não significava maior domínio. Aliás, o Sporting revelou-se sempre confortável na partida, mesmo que o jogo atacante não fluísse como é habitual. Prova disso mesmo foi a ineficácia de Luis Suárez, a grande figura dos leões na dianteira, presa fácil para a bem montada e possante defesa do conjunto orientado pelo espanhol Mikel Arteta. O colombiano bem lutou, mas, tal como Gyokeres – antes do jogo chegou-se a falar numa luta a dois para se saber quem seria o mais eficaz – o artilheiro colombiano também não foi grande ameaça para a baliza da formação londrina.
Riscos calculados até à magia de Martinelli
Curiosamente, o técnico Rui Borges fez apenas duas substituições aos longo do encontro, primeiro com a entrada do meio-campista português Daniel Bragança para o lugar do jovem compatriota João Simões, depois ao trocar o talentoso Pedro Gonçalves – ainda longe do seu melhor devido às lesões que o têm afetado – por Rafael Nel, uma das pérolas de Alvalade que iniciou a sua carreira no Benfica. Neste capítulo, refira-se a propósito que a Academia Cristiano Ronaldo, em Alcochete, é a que mais talentos tem dado ao futebol português, prova da aposta do Sporting na prata da casa com resultados bem visíveis, o que já não acontece de forma tão evidente nos seus maiores rivais.
Mesmo com estas alterações, os leões mantiveram-se sempre numa toada cautelosa e mesmo lenta, o que levou o Arsenal a controlar, de certa forma, os acontecimentos. Aos 64 minutos um remate de fora da área do volante espanhol Martin Zubimendi levou a bola a entrar na baliza de Rui Silva, mas o lance acabou por ser anulado pelo VAR por fora de jogo de Viktor Gyokeres. Esta foi também uma altura em que o encontro sofreu um ligeiro abanão, com as duas equipas mais atrevidas, pelo que a partida ganhou a emoção que até então passara praticamente ao lado.
O Sporting esteve bem perto de inaugurar o marcador em duas ocasiões pelo extremo moçambicano Geny Catamo, numa delas, de cabeça, valendo a excelente intervenção de Raya a defender para canto. Depois, numa arrancada pela direita, Catamo rematou rasteiro, com o guarda-redes espanhol de novo em ação a evitar o que já parecia certo. Só que o balde de água fria, gelada mesmo, acabaria por surgir quando se cumpria o primeiro dos dois minutos de prolongamento concedidos pelo árbitro. O categorizado extremo brasileiro Gabriel Martineli, que havia entrado aos 76 minutos para o lugar de Trossard, fez um daqueles passes mágicos para o coração da área, ao escapar da direita para o meio, que encontrou Havertz em posição privilegiada, para, solto na área, sentenciar a partida. Uma vantagem importante para o jogo da segunda mão daqui a uma semana, mas o Sporting ainda tem uma palavra a dizer.
Rui Borges (treinador do Sporting): “Foi um jogo equilibrado. Tirando o canto que foi à barra e um remate defendido por Rui Silva, o Arsenal só teve o golo. Temos três oportunidades claras de golo que foram boas defesas do guarda-redes do Arsenal. Eles com as suas armas, nós com as nossas, duas grandes equipas e um jogo competitivo. Não merecíamos sair com a derrota, mas o futebol é isto. Já ganhámos depois dos 90 minutos, hoje perdemos. Se há grandes desafios, é para esta equipa. Vamos procurar algo inédito em Londres, onde acredito que vamos dar uma boa resposta.”
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

