
O grande clássico do Estádio da Luz foi bem emotivo e recheado de peripécias, ainda que a arbitragem se tenha pautado por grande acerto, salvo um ou outro erro sem qualquer interferência no resultado. Depois do deslize do Sporting em Braga, curiosamente com resultado idêntico, o FC Porto lidera o campeonato com quatro pontos de avanço sobre o conjunto de Alvalade e sete sobre a formação da Luz. Quando faltam nove jornadas para o final do campeonato, os dragões continuam a ser os principais favoritos ao título, pois, aparentemente, têm um calendário mais acessível do que a concorrência. O segundo lugar, que dá acesso ao play-off da Liga dos Campeões, poderá ser a grande luta a travar por leões e águias, que ainda têm de se defrontar no próximo mês em partida relativa à 30ª ronda da prova. E o campeonato só não ficou praticamente decidido nesta partida da Luz porque o FC Porto teve o pássaro na mão e deixou-o fugir. Já em período de descontos, o guardião internacional português Diogo Costa evitou males maiores num lance aparatoso e em que os benfiquistas reclamaram penálti. Claro que é uma jogada que está a dar muito que falar, mas tratou-se de um mero choque entre Pavlidis e Costa, sem que se tivesse vislumbrado qualquer intenção de derrubar o atacante grego.
Desinibido a jogar no Estádio da Luz diante de mais de 66 mil espectadores, o FC Porto foi manifestamente superior ao conjunto orientado por José Mourinho – expulso na parte final por pontapear uma bola na direção do banco portista, mas que o próprio desmentiu ao referir que a intenção foi a de chutar para a bancada – e conseguiu dois golos de belo efeito. Logo aos 10 minutos, Victor Froholdt abriu o marcador, depois de receber um passe em profundidade do argentino Alan Varela. O possante médio dinamarquês correu em velocidade para a baliza e rematou para uma primeira e deficiente defesa do guardião ucraniano Anatoliy Trubin ao largar a bola para a frente, com Froholdt a não perdoar na recarga. Feito o mais difícil, os portistas, extremamente seguros na defesa – é a equipa que menos golos sofreu – dominavam a partida a seu bel-prazer, sem que o Benfica conseguisse ligar o seu jogo, tal foi o seu desacerto na interação entre os setores e o número exagerado de passes falhados. Rafa Silva, recentemente contratado ao Besiktas, da Turquia, voltou a ser aposta de Mourinho, mas o atacante português perdeu o fulgor de outros tempos, quando a sua velocidade e apurada técnica faziam sérios estragos nas defesas contrárias. O grego Pavlidis parece atravessar um momento menos bom, disso também se ressentindo o ataque dos encarnados, que tem no norueguês Andreas Schjelderup, que esteve para ser dispensado, bem como para o argentino Gianluca Prestianni, os elementos em maior destaque.
Com o Benfica completamente à deriva e irreconhecível, acusando a falta do seu grande carregador de piano, o meio-campista internacional norueguês Fredrik Aursnes, lesionado, o FC Porto aproveitou bem o desnorte adversário. Numa jogada individual, aos 40 minutos, o extremo polaco Oskar Pietuszewski, de 17 anos, ficou frente a frente com Nicolas Otamendi e driblou o argentino como bem quis, que caiu mesmo por terra, para arrancar um violento remate sem qualquer hipótese de defesa para o guardião benfiquista. Trubin haveria depois de defender um espetacular remate do espanhol Gabri Veiga, ao brilhar entre os postes, impedindo que o FC Porto fosse para os balneários a vencer por 3-0, no que poderia ser a machadada final no encontro.
Mexidas nos bancos beneficiam as águias
Para a segunda metade da partida, o técnico Francesco Farioli começou logo por mexer no onze ao entrar em campo com o costa-marfinense Seko Fofana e com o extremo brasileiro William Gomes, por troca com Gabri Veiga e Pepê, respetivamente, ambos com cartões amarelos. A ideia do técnico teve a sua lógica, pois o jogo estava a ser muito intenso e mesmo duro, pelo que o FC Porto corria o risco de, a qualquer momento, ficar a jogar com menos uma unidade. Numa primeira análise, não foi por estas trocas que os dragões perderam fulgor, até ao momento em que José Mourinho chamou a jogo o ponta-direita Dodi Lukebakio e o atacante croata Franjo Ivanovic. Bastaram quatro minutos para o Benfica reduzir a desvantagem com um golo do norueguês Schjelderup, que apenas teve de encostar o pé para desfeitear o guardião Diogo Costa, depois de Lukebakio enviar um violento tiraço ao poste. Os encarnados começavam a ver a luz ao fundo do túnel, pois o golo animou, e de que maneira, um estádio em completo delírio, com óbvios reflexos no rendimento da equipa.

Um golo que surgiu já sem Oskar Pietuszewski em campo, por troca com o extremo espanhol Borja Sainz, no que terá sido uma substituição precipitada de Farioli ao retirar do jogo aquele que estava a ser a maior ameaça para a baliza dos encarnados. Mesmo assim, o FC Porto até esteve perto de chegar ao terceiro golo, não fosse uma bola disparada pelo turco Deniz Gul ser cortada, em último recurso, pelo lateral bósnio Amar Dedic. Só que o Benfica tanto persistiu que acabou mesmo por, muita justamente, empatar a partida, aos 88 minutos, pelo meio-campista luxemburguês Leandro Barreiro, entretanto lançado a jogo, com um remate frontal imparável, após cruzamento de Ivanovic. O segredo esteve mesmo nos bancos e, obviamente, a perspicácia de José Mourinho revelou-se bem mais ousada, em contraste com a do seu homólogo Francesco Farioli. Já em período de descontos os encarnados queixaram-se de um penálti do guardião Diogo Costa sobre Pavlidis, mas o árbitro viu o lance de forma diferente, no que pareceu uma decisão correta.
José Mourinho (treinador do Benfica): “É muito difícil jogar contra o FC Porto. Tem quatro alas. Qual deles é o mais rápido? Joga com dois, muda com dois, entram os dois. E, honestamente, são muito superiores a nós na intensidade do jogo. O jogo que nós fizemos melhor, contra o FC Porto, dos três, foi o jogo da Taça de Portugal. E porquê? Porque jogámos com Aursnes e Barreiro no meio-campo e tivemos muita bola. E perdemos muito pouca bola. Quando tu jogas contra o FC Porto e perdes muita bola, vais correr atrás deles, só que eles vão de mota e tu vais de bicicleta. O perigo esteve sempre ali. No 0-2 podia ter aparecido o 0-3, no 1-2 podia ter aparecido o 1-3. Eles fizeram o jogo que queriam fazer. Levam um resultado que eu acho que é bom para eles. Mas eu penso que eles vieram para ganhar.”
Francesco Farioli (treinador do FC Porto): “Houve cinco ou seis situações em que devíamos ter feito golo, mas não marcámos e pagámos o preço. É uma pena não termos conseguido os três pontos, mas é importante mudarmos o chip e pensarmos já no próximo encontro. Foi um jogo muito claro em termos de dinâmicas. Viemos aqui para vencer. Protagonizamos um arranque muito forte e fizemos uma boa primeira parte, mas não conseguimos ser eficazes para fechar o jogo. Houve cinco ou seis situações em que o devíamos ter feito, mas não marcámos e pagámos o preço.”
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

