
Jogo quentinho e rijamente disputado dentro do campo, mas também fora dele, com provocações entre André Villas-Boas e Frederico Varandas, com o responsável máximo pelo clube de Alvalade a chamar “cobarde” ao seu homólogo do emblema do Dragão. Resquícios de um passado pouco pacífico e nada dignificante no mundo do futebol, provocações que se acentuam à medida que o final da temporada se aproxima. Em vésperas de mais um escaldante Benfica-FC Porto, que poderá ser decisivo no relançamento da Liga Portugal – os dragões seguem na liderança com quatro pontos de avanço sobre os leões e sete sobre as águias de José Mourinho -, este “aperitivo” pode ter deixado o Jan Bednarek fora de combate. O influente central polaco teve de ser substituído depois de levar um murro de Luis Suárez nas costelas, pelo que é percetível nas imagens televisivas, mas o colombiano foi protagonista por outros motivos. Para lá de apontar o golo decisivo na transformação de uma grande penalidade, terá chamado ladrão ao árbitro num gesto bem significativo com as mãos, levando o FC Porto a apresentar uma queixa contra o atacante leonino.
Pelo que se vê, o ambiente vivido no Estádio José Alvalade entre as duas melhores equipas do futebol português, dirigido por um árbitro com pouca experiência e que deixou jogar para lá dos limites, teve episódios lamentáveis. Mas, valha a verdade, o espetáculo foi bem emotivo e o FC Porto apresentou-se no recinto do bicampeão nacional com o intuito de conseguir chegar ao triunfo nesta primeira mão das meias finais da Taça de Portugal, que prossegue em finais de abril, ainda que sem data marcada. O técnico Francesco Farioli entendeu colocar em campo um onze bem diferente do que os dragões têm utilizado ao logo da época ao deixar de fora alguns jogadores titulares, casos do central polaco Jakub Kiwior, do meio-campista norueguês Victor Froholdt, ou o influente Gabri Veiga, elemento em evidência na zona intermediária dos dragões. Em alternativa, apostou nos jovens Rodrigo Mora, o jovem prodígio português que raras vezes é primeira opção para Farioli, assim como no extremo brasileiro William Gomes, que foi só o melhor jogador em campo. E ainda promoveu à titularidade o médio costa-marfinense Seko Fofana, bem como o atacante nigeriano Terem Moffi, as últimas contratações do FC Porto no mercado de inverno. Já o Sporting atuou com o seu onze habitual, mesmo tendo no próximo sábado um encontro extremamente complicado na deslocação a Braga, onde defronta os guerreiros do Minho.
Mesmo com inúmeras alterações, justificadas pelo facto de os dragões entrarem numa fase decisiva da Liga Portugal, pois visitam o Estádio da Luz no próximo domingo para defrontar o Benfica, os azuis e brancos iniciaram o encontro em bom plano e foram mesmo dominantes. A primeira ameaça à baliza leonina surgiu por William Gomes, com o jovem brasileiro a desferir um remate cruzado que falhou o alvo por pouco. Mais tarde foi a vez do seu compatriota Pepê arrancar um potente remate de primeira, como o japonês Hidemasa Morita a desviar de cabeça pela linha final. À boa entrada portista responderam os leões com algumas investidas pelos flancos, normalmente protagonizadas pelo moçambicano Geny Catamo e pelo brasileiro Luis Guilherme, mas a bola raras vezes chegava nas melhores condições a Luis Suárez, máximo goleador do Sporting e da Liga Portugal.
Já perto do intervalo, aconteceu a lesão de Jan Bednarek, queixando-se o FC Porto que terá levado um murro nas costelas atingido pelo colombiano Suárez. Mas os casos não se ficariam por aqui, pois, no período de descontos, o lateral portista Alberto Costa cometeu uma falta dura sobre Genny Catamo, o que lhe poderia ter custado a expulsão, pois já tinha visto um cartão amarelo. O árbitro assim não o entendeu e acabou por advertir o capitão do Sporting, o dinamarquês Morten Hjulmand, por ter exagerado nos protestos. Final de primeira parte bem emotivo e com mais 10 minutos de compensação devido às várias paragens para assistências médicas, principalmente a Alberto Costa e a Bednarek, com o polaco em dúvida para defrontar o Benfica, o que constituirá perda de vulto no eixo central da defesa do FC Porto.

Suárez resolve… para não variar
A uma primeira parte intensa e com muito nervo, mas bem jogada, faltou o golo. Os portistas estiveram bem mais perto de o conseguir, mas foram infelizes, pois dispuseram de ocasiões flagrantes para baterem o guardião português Rui Silva. E logo na reentrada, já com Froholdt em campo e Pepê a lateral-direito no lugar de Alberto Costa, o argentino Alan Varela fez estremecer o poste da baliza leonina com um tiraço monumental. O mesmo fez o lateral espanhol Iván Fresneda à passagem da hora de jogo, mas a bola acabaria por sobrar para o capitão Hjulmand, que sofreu falta indiscutível de Seko Fofana. Chamado à cobrança do castigo máximo, Luis Suárez não vacilou e atirou a contar, rasteiro, sem dar qualquer hipótese ao guardião internacional português Diogo Costa. Aos 62 minutos fazia-se parte da história desta eliminatória que colocará uma das duas equipas na final da Taça de Portugal quando o Sporting visitar em finais do mês de abril o Estádio do Dragão.

O FC Porto ainda tentou reagir à adversidade e subiu as suas linhas, com Gabri Veiga e Victor Froholdt mais interventivos, mas foi o Sporting que esteve perto de chegar ao golo. Luis Suárez, sempre ele, esteve quase a marcar com um remate meio torto que saiu ao lado, enquanto que o FC Porto acabou por refrear os ânimos, pois o resultado, não sendo positivo, é o menos mau tendo em vista o jogo da segunda mão. Já o dissemos, a arbitragem não correspondeu minimamente a uma partida desta dimensão e as duas equipas não deveriam ter terminado com todos os jogadores em campo. A virilidade ultrapassou os limites e tanto Alberto Costa como Luis Suárez deviam ter seguido o caminho dos balneários por faltas graves e completamente à margem da lei. Findo o jogo vieram os maus exemplos com os presidentes André Villas-Boas e Frederico Varandas extremamente corrosivos nas críticas, o que sendo já uma imagem de marca, não deixa de ser censurável e reprovável, situação que deveria merecer a atenção dos organismos que superintendem o futebol português.
Rui Borges (treinador do Sporting): “No geral, fomos melhores. Queríamos ganhar, fosse 1-0, 2-0 ou 2-1. Vamos ter outros 90 minutos intensos em que vamos querer muito ganhar. Em casa do adversário, é certo, mas vai ser um jogo como tem sido. A primeira parte teve muitas paragens a tentar matar o ritmo do jogo, teve pouco tempo útil. O FC Porto faz muitas faltas e tenta não deixar o Sporting CP entrar no seu jogo. Estamos a ganhar 1-0 e agora pensamos no jogo do SC Braga, que vai exigir muito de nós e para o qual temos de recuperar.”
Francesco Farioli (treinador do FC Porto): “Acho que fizemos um grande jogo, especialmente na primeira parte. A segunda parte foi um pouco diferente, mas terminar o jogo com o Pepê e o Pablo Rosario a defender quando não são defesas, percebendo que do outro lado está o Sporting que tem o melhor ataque da Liga e que, nos dois jogos contra nós, marcou dois penáltis e um autogolo. Infelizmente, o resultado não foi aquele que queríamos, mas foi apenas a primeira metade desta batalha. Vamos ter o próximo jogo no Dragão e vamos jogar todas as cartas.”
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

