Vinícius, o “mau da fita”, decisivo no triunfo do Real Madrid sobre o Benfica (2-1) em jogo eletrizante

Ao apontar o segundo golo da sua equipa, o extremo brasileiro acabou praticamente com as pretensões do Benfica em seguir em frente na Liga dos Campeões. Encarnados marcaram primeiro e assustaram o Bernabéu

Rafa Silva ainda marcou o golo de abertura, mas foi insuficiente para o Benfica permanecer na Champions. (Foto: SL Benfica)

Tal como no jogo da primeira mão do play-off de acessos aos oitavos-de-final da Champions, Vinícius Júnior voltou a ser decisivo na partida disputada no Estádio Santiago Bernabéu e que afastou o Benfica da competição, depois de toda a confusão vivida no encontro do Estádio da Luz. Então, o Real Madrid venceu os encarnados por 1-0, com um monumental golo de Vini Jr., para depois o brasileiro festejar efusivamente, no que foi entendido como uma provocação, tanto mais que acabaria por lhe ser exibido o cartão amarelo. O argentino Prestianni terá dirigido, alegadamente, palavras racistas ao craque do Real Madrid, apelidando-o de “macaco”, motivando a abertura de um inquérito por parte da UEFA ao extremo das águias. Suspenso preventivamente e à espera de um castigo duro, caso se provem as acusações, o jovem jogador, de 20 anos, esteve no centro de um vulcão que acabou por marcar a eliminatória, pois o ambiente antes do encontro à volta do estádio foi de autêntico terror.

Para Madrid viajaram 5.000 adeptos do emblema da águia, naturalmente convencidos de que o Benfica poderia dar a volta ao resultado e manter-se em prova. E o clube da Luz adiantou-se mesmo no marcador, aos 14 minutos, com um golo de Rafa Silva, recentemente contratado ao Besiktas, da Turquia. O grego Pavlidis foi lançado pela direita e cruzou rasteiro para a área, surgindo Raúl Ascencio a aliviar e a obrigar o guardião belga Thibaut Courtois a intervir, com a bola a sobrar para Rafa e a carimbar o golo da sua equipa. Entrou bem melhor a formação orientada por João Tralhão, adjunto de José Mourinho. O principal responsável pelos encarnados não foi para o banco por ter sido expulso no jogo da primeira mão e assistiu ao encontro no autocarro do Benfica, mesmo tendo uma cabine de rádio reservada no estádio. Já Gianluca Prestianni ficou no hotel a assistir às peripécias da partida, porventura saltando de alegria no momento em que Rafa igualou a eliminatória.

Contudo, essa mesma alegria evidenciada pelos jogadores em campo durou apenas dois minutos. O tento do empate foi obtido por Aurélien Tcahouaméni com um violento disparo à entrada da grande área, após assistência do uruguaio Federico Valverde, um meio-campista que encheu o campo e que, tal como Vinícius Júnior, foi um dos grandes responsáveis pelo triunfo dos merengues. Um lance que teve ainda a infeliz contribuição do central argentino Nicolás Otamendi, ao errar um passe e a deixar a bola completamente à mercê dos adversários. Os encarnados até reagiram de pronto e desperdiçaram mesmo, de baliza aberta, a oportunidade de voltarem a avançar para a frente do marcador, depois de um cruzamento rasteiro do norueguês Schjederup, sem que surgisse alguém em posição de remate.

Merengues mais atrevidos e… Vini Jr. dá o golpe final

Para a segunda parte, o Real Madrid surgiu bem mais atrevido no terreno, fazendo uso de uma maior velocidade e a pressionar fortemente no último terço do terreno. A partida não foi tão intensa como nos primeiros 45 minutos, mas deu para ver bem que os jogadores orientados por Álvaro Arbeloa estavam mais confortáveis. Mesmo assim, o Benfica esteve de novo muito perto do golo, não fosse o espetacular remate de trivela de Rafa Silva, aos 59 minutos, levar a bola a beijar a trave da baliza defendida por Thibaut Courtois. O jogo haveria de conhecer um momento preocupante com a lesão de Raúl Ascensio, na sequência de um choque acidental com o seu colega de equipa Eduardo Camavinga. O lateral francês recuperou do tremendo impacto, enquanto que Ascensio teve mesmo de ser longamente assistido, para depois abandonar o relvado em maca com um colar cervical. Segundo o técnico Arbeloa, o estado clínico do atleta, transportado de imediato ao hospital, não parece ser grave, tendo sido afetado no pescoço, pelo que tudo não terá passado de um grande susto.

E Vinícius Júnior apareceu aos 80 minutos a marcar o golo de todas as decisões, depois de uma perda de bola a meio-campo do defesa Tomás Araújo. Valverde aproveitou o deslize e endossou a bola na esquerda ao rápido extremo brasileiro, que correu para a baliza e, já no interior da grande área, rematou cruzado sem dar qualquer hipótese de defesa ao guardião ucraniano Anatoliy Trubin. No conjunto das duas mãos nem se pode dizer que Real Madrid tenha sido muito superior ao Benfica, mas primou pela eficácia e, como é lógico, contou com o forte contributo de Vini Jr., letal em momentos cruciais, mesmo sendo o centro de todas as atenções por motivos que deviam estar banidos dos recintos de futebol.

Amanhã, sexta-feira, realiza-se em Nyon, na Suíça, o sorteio dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões e os merengues poderão voltar a defrontar uma equipa portuguesa. O Real Madrid e os noruegueses do Bodo/Glimt, que eliminaram o Inter Milão no play-off, são os possíveis adversários do Sporting, ronda para a qual os bicampeões portugueses se apuraram diretamente.

Ambiente de terror nas imediações do Santiago Bernabéu

Foi de pânico e mesmo de terror o ambiente vivido no Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid, antes do encontro entre o Real Madrid e o Benfica. Alguns adeptos dos encarnados, vestidos de preto, não acataram as ordens da polícia nacional espanhola e recusaram-se a retirar os capuzes que enfiaram na cabeça, gerando-se uma tremenda confusão. Os agentes da autoridade investiram sobre os adeptos à bastonada face ao mau comportamento de uns quantos e, logicamente, os mais pacíficos pagaram por tabela. Crianças a chorar, indivíduos a rebolar no chão, um autêntico caos que as imagens televisivas mostraram em direto. Momentos dramáticos e arrepiantes. Culpa, como é óbvio, de alguns energúmenos que deveriam ser proibidos de viajar, quanto mais entrar em estádios.

Carga policial antes do encontro nas imediações do estádio provocou o pânico Foto Más Madrid

Na origem de todo este cenário que não só envergonha os que gostam de futebol, mas de uma forma geral os portugueses, está o chamado “caso Prestianni”. O inquérito que decorre na UEFA, no âmbito do processo que pode castigar severamente o futebolista argentino por, alegadamente, ter chamado “macaco” a Vinícius Júnior, o extremo brasileiro do Real Madrid, tem dado que falar e ontem houve novos e lamentáveis desenvolvimentos. Depois do máximo organismo europeu rejeitar o recurso apresentado pelo Benfica no intuito de Prestianni ser ilibado da “culpa” e constituir alternativa para o encontro com os merengues, foi o próprio argentino que incendiou a já de si muito quente atmosfera que se continua a viver.

“Dar um murro sem bola pode-se, vê-se e não há sanção. Castigar sem provas pode-se e vê-se. Já não escondem nem um pouco com o Real. Dão vergonha”, escreveu Gianluca Prestianni na rede social X, referindo-se ao lance do encontro da primeira mão entre Federico Valverde e o sueco Samuel Dahl, em que o Benfica pediu cartão vermelho direto para o uruguaio da formação espanhola. O post acabou por ser retirado, mas logicamente que foram feitas inúmeras cópias e o assunto tornou-se viral.

Pior ainda, em mais um intolerável ato de racismo, foi o que aconteceu com um adepto português identificado nas redes sociais como LeoDias, ao gravar um vídeo, publicado nas redes sociais, com um cacho de bananas quando passava junto a um poster do Real Madrid numa visita ao museu do Real Madrid. Bem em cima da imagem de Vini Jr., um gesto que, naturalmente, ajudou ainda mais a incendiar o ambiente na capital madridista. A entrada dos adeptos portugueses acabou por decorrer com a naturalidade possível, ainda que debaixo de muita tensão, pois a entrada do Santiago Bernabéu obedeceu a uma revista rigorosa. Mesmo assim, o aparato foi de tal ordem, que a própria polícia montada teve de intervir para afastar os desordeiros, gerando-se um verdadeiro clima de pânico entre os portugueses, muitos sem culpa nenhuma, com crianças ao colo, algumas delas a chorar copiosamente. Um descontrole total por culpa de alguns – os mais radicais -, pois a grande maioria deslocou-se pacificamente ao Bernabéu na expectativa de que o Benfica pudesse seguir em frente na competição.

Vaz Mendes
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

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