
Recorde-se que quando estavam decorridos 50 minutos da partida que os merengues disputaram no Estádio da Luz o brasileiro Vinícius Júnior correu para o árbitro para lhe comunicar que o argentino, de 20 anos, lhe tinha chamado “mono”, que em português significa macaco. O alegado ato racista obrigou o juiz do encontro, o francês François Letexier, a acionar de imediato o protocolo antirracismo, cruzando os braços em forma de “X”. A partida seria reatada quase uma dezena de minutos depois com o resultado favorável ao Real Madrid (1-0), precisamente com um golo magistral apontado por Vini Jr., que acabou por estar na origem da sucessão dos lamentáveis acontecimentos que se seguiram.
Todos sabem que o fenomenal jogador brasileiro já esteve envolvido em outras polémicas devido à forma exuberante como se comporta quando marca um golo. E no Estádio da Luz fê-lo junto à bandeirola de canto com uma dança considerada provocatória para os adeptos encarnados, no que foi acompanhado pelo seu colega Kilian Mbappé. Aliás, o atacante francês, considerado unanimemente um dos melhores jogadores do Mundo, disse, no final do encontro, ter ouvido Prestianni chamar “mono” por cinco vezes a Vini Jr., pelo que a UEFA terá considerado Mbappé uma testemunha importante em todo este intrigante processo. E, em boa verdade, o caso tornou-se num autêntico mistério, tanto mais que, em declarações à UEFA, o argentino do Benfica disse que o termo aplicado não foi “mono”, mas sim “maricón”, ou seja, à boa maneira argentina, tentou apelidar o brasileiro de “chorão” ou “queixinhas”.
Ora bem, se assim fosse nada de mal viria ao mundo, mas no caso a emenda não é pior que o soneto, mas exatamente igual. “Maricón” – maricas em português – é um termo considerado homofóbico, pelo que a medida penal perante o máximo organismo do futebol europeu é exatamente igual nos dois casos. O instrutor do processo entendeu dar um parecer favorável às queixas apresentadas pelo jogador, assim como pelo Real Madrid, sendo que Prestianni fica suspenso preventivamente no âmbito do relatório preliminar instaurado pelo Órgão de Controle, Ética e Disciplina da UEFA (CEDB), logo a seguir ao acontecimento. Tudo leva a crer, portanto, que o jovem extremo argentino venha a ser duramente castigado, falando-se com insistência que, comprovados os factos, seja penalizado pelo menos com 10 jogos de suspensão.
Benfica foi notificado e vai recorrer
Numa primeira análise, tudo apontava para que José Mourinho levasse Prestianni a Madrid e, eventualmente, utilizá-lo. O técnico dos encarnados não se pronunciou sobre o assunto quando, no final da partida com o AVS Futebol, para a Liga Portugal, “por estar a decorrer um inquérito”, e o próprio Benfica foi acusado por se manter calado em relação ao caso. Expulso com um duplo amarelo no decorrer do encontro com o Real Madrid, Mourinho não vai poder estar no banco na próxima quarta-feira no Estádio Bernabéu, nem mesmo comunicar com os seus adjuntos. Em Portugal essa não é a prática corrente, pois tal é permitido, mas em jogos europeus um castigo dessa natureza implica o alheamento total do técnico durante o jogo. Se os encarnados já têm uma tarefa muito complicada para tentarem virar o resultado a seu favor, mais difícil fica com a ausência de Mourinho, uma voz de comando como poucas, não fosse o Special One considerado um dos melhores treinadores do Mundo.
Entretanto, o Benfica já reagiu em comunicado à suspensão preventiva do futebolista:
“O Sport Lisboa e Benfica tomou conhecimento da decisão da UEFA de aplicar uma suspensão provisória de um jogo ao seu jogador Gianluca Prestianni, no âmbito da averiguação em curso relativamente ao incidente ocorrido no jogo frente ao Real Madrid.
O Clube lamenta ficar privado do jogador enquanto o processo está ainda em investigação e irá apelar desta decisão da UEFA, mesmo se dificilmente os prazos em causa terão qualquer efeito prático para o jogo da segunda mão do play-off da Liga dos Campeões.
O Sport Lisboa e Benfica reafirma igualmente o seu compromisso inabalável no combate a qualquer forma de racismo ou discriminação, valores que fazem parte da sua identidade histórica e que se refletem na sua ação quotidiana, na sua comunidade global, no trabalho da Fundação Benfica e em figuras maiores da história do Clube, como Eusébio”.
Prestianni não se deixa intimidar… e viaja para Madrid
Com ou sem castigo, que efetivamente pode ser extremamente pesado, Gianluca Prestianni ameaçou avançar com um processo contra Kylian Mbappé, Eduardo Camavinga e Vinícius Júnior, obviamente se não for acusado pela UEFA do alegado ato de racismo. Estes foram os nomes que mais eco deram às alegadas provocações do argentino, mas um pouco por todo o mundo o caso foi comentado por diversas figuras ligadas ao futebol, quer atuais, como do passado, entre dirigentes, treinadores e antigas glórias do desporto-rei. Logicamente que Prestianni tem direito à presunção de inocência e o caso está muito longe de ser concluído, pois não há uma prova concreta de que tenha, realmente, chamado “macaco” a Vinícius. Na altura do alegado insulto racista, o argentino tapou a boca com a camisola, pelo que é indecifrável o que disse, a não ser para o próprio Vini Jr. e para Kylian Mabappé, a que se acrescentou depois Camavinga.
Mesmo que, à partida, não possa defrontar o Real Madrid, Prestianni irá viajar para a capital espanhola com a restante comitiva, segundo noticiou o jornal “A Bola”, informação posteriormente confirmada pelos demais órgãos de comunicação portugueses. Uma vez que o clube encarnado irá recorrer da suspensão do jogador, pode muito bem acontecer – mesmo sendo altamente improvável – que possa fazer parte do lote dos eleitos de José Mourinho para a importante partida que poderá colocar o Benfica nos oitavos de final da Liga dos Campeões.
Um caso que ainda vai fazer correr muita tinta. Para não variar…
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

