
Foi com naturalidade e sem surpresas que Portugal escolheu o Presidente da República e, por inerência do cargo, Comandante Supremo das Forças Armadas. Os eleitores portugueses acorreram em massa às urnas, ainda que pouco mais de metade o tenham feito num universo de 11 milhões de votantes. Seguro obteve uma vitória que constituiu um recorde histórico, pois conseguiu, numa eleição presidencial, o maior número de votos ao longo de mais de meio século de Democracia, superando os valores de 1991 aquando da reeleição do socialista e grande estadista Mário Soares.
O novo inquilino do Palácio de São Bento recolheu 66,82% da preferência dos portugueses (3.482.481 votos) contra 33,18% de André Ventura (1.729.381). Um triunfo sem margem para qualquer dúvida diante de um adversário que se assumiu como o grande líder da direita e que prometeu um dia governar Portugal. Contudo, o país não irá a votos tão cedo, pelo menos nos próximos três anos e meio, já que as próximas eleições legislativas só acontecerão em finais de 2029. Até lá, Seguro prometeu total cooperação com o governo liderado pelo social-democrata Luís Montenegro, esperando-se que Portugal dê o tão desejado salto, fundamentalmente nas áreas da Saúde, da Educação e da Habitação, setores fulcrais para que a sociedade seja mais justa e equilibrada.
Os temporais que têm assolado o território nacional deram tréguas e todos os eleitores – ou quase todos – puderam exercer o seu direito cívico, ainda que a abstenção tenha sido praticamente igual à registada na primeira volta. Os que não o conseguiram fazer podem agora no próximo dia 15 de fevereiro votar, sabendo-se de antemão que António José Seguro, que recebeu o apoio do Partido Socialista e de diversos quadrantes políticos, quer à direita como à esquerda, tomará posse como chefe da nação, sucedendo assim a Marcelo Rebelo de Sousa. O ato eleitoral decorreu com toda a normalidade, num dia solarengo, depois de largas semanas de forte temporal, que já ceifou a vida a 15 pessoas, para lá da destruição provocada pelas inundações e desmoronamentos que transformaram a vida de muitos habitantes num autêntico terror. Mesmo assim, a taxa de abstenção continua com números extremamente elevados já que, praticamente, metade da população não exerceu o seu direito de voto, ou seja, cerca de cinco milhões e meio de potenciais eleitores. Contudo, estes são números já habituais entre os portugueses, derivam de um certo desconforto provocado pelo desgaste de sucessivos atos eleitorais, alguns deles resultantes de quedas dos governos.
A última aconteceu em finais de 2023 por via da demissão do socialista António Costa, atual presidente do Conselho Europeu, sobre o qual recaíram suspeitas infundadas por alegada intervenção para “desbloquear” negócios do lítio e do hidrogénio. Marcelo Rebelo de Sousa acionou a chamada “bomba atómica” ao dissolver a Assembleia da República dada a demissão de Costa. Então, na sequência das eleições legislativas antecipadas, Portugal foi conduzido a um novo ciclo político que se mantém até à data com o governo saído do triunfo da coligação AD liderada pelo primeiro-ministro Luís Montenegro. Contestado por muitos, o líder governativo poderá ter a vida mais simplificada, tanto mais que Seguro fez questão de avisar que a sua cooperação com o atual executivo será total. Porém, o sucessor de Marcelo já traçou as metas principais para os próximos cinco anos, a primeira das quais direcionada para a proteção daqueles que viram as suas vidas afetadas pelos recentes temporais e que terão de ser ressarcidos face aos prejuízos sofridos.
Apelos de Ventura sem suporte legal
André Ventura, o candidato apoiado pelo seu próprio partido – o Chega, de extrema-direita -, bem tentou que as eleições fossem adiadas ao argumentar a inexistência de condições devido à intempérie, considerando o ato um “desrespeito” para os portugueses. É um facto que o Centro e o Sul do país foram bastante afetados, mas a lei apenas prevê o adiamento em assembleias de voto concretas, mas não a nível nacional. Assim, cerca de 37.000 eleitores de seis municípios irão às urnas no dia 15 de fevereiro – menos de 0,5 por cento da população recenseada -, conforme determinação da Comissão Nacional de Eleições (CNE), no estrito cumprimento da lei. Obviamente que se trata de um número residual se comparado com o resto do país, pelo que Ventura apenas tentou, estrategicamente, ganhar algum tempo no intuito de cativar mais eleitores. A provar que a segunda volta das eleições presidenciais podia desenrolar-se com naturalidade, basta verificar que a abstenção foi idêntica ao ato eleitoral do passado dia 18 de janeiro. Desde cedo sentiu-se que iria haver boa adesão às urnas, no que constituiu um excelente sinal para a Democracia. Pelas 12h00 a afluência era de 22,3%, subindo para 40,5% cento às 16h00, números comparáveis com as eleições da primeira volta, quando, então, foram 11 os candidatos que se apresentaram a sufrágio.
Quando, às 20h00 exatas, foram conhecidas as primeiras projeções, obviamente que o contentamento na sede de campanha de Seguro revelou-se bem diferente daquela que ocorreu onde os apoiantes de Ventura estavam reunidos. Contrariamente a outras eleições, a noite não foi muito longa, pois a contagem dos votos decorreu de forma célere. O novo Presidente da República, que será empossado no próximo dia 9 de março, saiu de sua casa nas Caldas da Rainha acompanhado pela mulher e pelos dois filhos, rapidamente engolido pelos inúmeros jornalistas que acorreram ao local. Momentos marcantes para um político que esperou 11 anos para o regresso ativo à política, depois de em 2014 ter perdido para António Costa a liderança do Partido Socialista (PS) nas eleições primárias internas então realizadas. Costa desafiou Seguro e venceu, colocando os dois de costas voltadas, após uma vitória “pouco esclarecedora” dos socialistas nas eleições europeias. Ironia do destino, mesmo com o PS, numa primeira fase, a não declarar o apoio ao seu antigo líder, Seguro regressou para vencer claramente a luta pelo mais alto cargo na nação, passando a ser sexto Presidente da República desde a instauração da democracia em 1974 em Portugal.
Sondagens bateram certo, sem surpresas
Se alguém estava à espera de uma surpresa – muito poucos, até mesmo André Ventura – a eleição de António José Seguro já havia sido dada como praticamente certa. O candidato apoiado pelo Partido Socialista e, praticamente, por todas as forças políticas à esquerda e à direita, um homem de consensos, teve sempre as sondagens a seu favor, aliás como o PortalR3 informou em devido tempo. Ventura foi obrigado a correr sozinho, apenas apoiado pelo Chega, o partido que o próprio criou, de nada valendo a argumentação de que Portugal precisava de uma viragem à direita – no caso à extrema-direita – para acabar com o socialismo. O seu discurso radical acolhe o apoio dos saudosistas – até de alguns grupos neonazis -, ou seja, convence aqueles que são claramente antissistema e que querem levar Portugal a um regime presidencialista liderado por um homem sem meios termos.

Arriscado e mesmo perigoso? Em certa medida sim, tanto mais que várias personalidades conotadas com a direita não tardaram em indicar Seguro como o homem certo para suceder a Marcelo, mesmo sabendo-se que o próximo Presidente da República é oriundo da área socialista. Ainda que se tendo demarcado da vida política há alguns anos, o professor universitário António José Seguro nunca renegou as suas origens, mas é claro que teve aliados de muito peso para vencer de forma clara o seu opositor. Ventura é um opositor feroz ao regime democrático instaurado em Portugal após a Revolução de Abril ocorrida em 1974 e até conotado com o Estado Novo. O jurista, de 43 anos, entende ter construído um “movimento imparável” que “em breve” governará Portugal, demarcando-se por completo do socialismo e mesmo da social-democracia, lutando por ideais que, na sua essência, pouco ou nada têm a ver com o sistema democrático vigente. Tem a seu favor ser um político que consegue cativar as massas através de um discurso muito direcionado para a imigração desregulada e para os que vivem da subsidiodependência, caso dos indivíduos de etnia cigana, não deixando de lutar energicamente contra o poder instituído.
Frequentemente apelidado de xenófobo e racista, Ventura é um defensor de valores tradicionais como “Deus, Pátria, Família e Trabalho”, os que no passado, com António Salazar e Marcelo Caetano, conduziram Portugal à guerra colonial, à fome e à miséria, num país onde a perseguição política não permitia a diversidade de ideias. Estas são as críticas apontadas ao autointitulado líder da direita, principalmente pelas forças mais à esquerda e mesmo ao centro. Talvez por isso, ou exatamente por isso mesmo, a maioria do povo português entendeu não entrar em aventuras radicais, quando o que se impõe é que as forças democráticas assumam um papel mais condizente na resolução dos graves problemas socioeconómicos que Portugal atravessa.
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

